Juneca e Pessoinha

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Quem viveu de perto a década de 70 e 80 com certeza já se deparou com inscrições como as de “Juneca e Pessoinha” em diversos muros da cidade. “Juneca Pessoinha”, numa grafia básica, chegava a confundir as pessoas que muitas vezes imaginavam ser uma só pessoa por traz das duas palavras: “Pixamos até a cúpula da câmara do congresso Nacional em Brasilia. Andei pelo Brasil inteiro todos lugares estão marcados na memória.” – conta Juneca em uma entrevista. Numa época de CÃO FILA KM 32 e poucos rabiscos pela cidade, Juneca e Pessoinha, ainda moleques, ganhariam notoriedade pelo volume de seus rabiscos e passariam a ser procurados por autoridades públicas. Traga-me ele, vivo ou morto! disse o até então prefeito Jânio Quadros quando questionado sobre Juneca. E parece que o recado surtiu efeito.


Em entrevista a rádio Bandeirantes Juneca conta como isso repercutiu na época: “Jânio Quadros ajudou bastante. Porque foi bem na época de transição, que eu estava saindo para o graffiti. Eu já estava fazendo graffiti, e quando ele começou com essa perseguição eu estava com uma obra exposta no MASP, fiz uma releitura de Portinari e estava no salão nobre, então isso levantou muito a imprensa, deu muito essa exposição lá, foi muito legal.” – explica Juneca.

Sobre a cena na época, explana quais eram as ocasiões que iam para as ruas pintar: Geralmente pintávamos após as festas, depois da meia-noite, uma hora da manhã. Naquela época era bem mais tranquilo, não tinha essa violência, as pessoas não eram tão desconfiadas como hoje, não tinha tanta polícia na rua como hoje tem muito mais!

No entanto, tempos depois, Juneca e Pessoinha tomariam rumos diferentes. Engajado em outra vertente, Juneca viraria em alguns anos artista plástico e Pessoinha, quem diria, viraria advogado. Formado em artes plásticas e com trabalhos expostos em países como México, França, Espanha e Itália, Juneca hoje tem mais de 30 anos e milhares de aulas ministradas no seu currículo. Sobre essa transição em sua vida e as diferenças entre o graffiti e a pixação, Osvaldo possui suas convicções bem definidas:

“Eu nunca me imaginei artista, eu pensava em ser um jornalista, trabalhar com televisão, coisas assim, foi minha primeira ideia. Aí meio que a vida foi me levando para isso, porque fui conhecendo, fui tendo elementos pra tá se apegando e gostando, tá entendendo? Então eu acho que o grande problema é um problema social, de todas as cidades, de as pessoas não terem oportunidades.

Porque se você tivesse oficinas culturais convidando essa moçada para estar fazendo alguma coisa, não somente o grafite. Mas eu não acho que a pixação é feia, o grafite é bonitinho e todo mundo que é pixador tem que ser grafiteiro. Não é isso que estou dizendo. Eu acho que a pessoa tem que ter elementos para se manifestar e conhecer uma outra coisa e ter uma ocupação em que possa se apegar, gostar, e que traga isso pra si como uma profissão, e podendo até se manifestar, se for o caso, né. Mas eu acho que é muita falta de oportunidade, é um grande problema social.” –  explica.

Questionado sobre a cena atual, Juneca compara os dois períodos que presenciou: “Acho que na nossa época não tinha tantas pichações, a nossa idéia nem era aparecer, era somente a curiosidade das pessoas. Ou você via o Juneca-Pessoinha numa avenida ou uma ruazinha sem saída, ou da casa de um parente, por exemplo. Não acredito ou numa estrada ou num outro estado numa outra cidade ou numa via que você esteja indo para o litoral, via alguma coisa assim. Depois se tornou, ou começou a se tornar, uma competição, entendeu. Uma competição entre gangues, entre rapazes, tal, e isso acabou poluindo. E com essa poluição acaba não definindo. Ninguém se destaca. Hoje, se você me perguntar quem é o pichador mais atuante na cidade, não sei te dizer, porque a cidade está toda pichada. Então acho que virou modismo e tal, não uma coisa como no caso a gente fazia. Não que era uma coisa certa, mas era uma coisa que não era feita por muitas pessoas entendeu? Alguns acham que sou contra pixação, na verdade seria ate incoerência, fiquei muitos anos na pixação aposentei e tomei outros caminhos, falo por mim, não quero ser exemplo para ninguém, como respeito quem faz a pixação, só quero que respeitem a minha decisão. Muitos que falam não eram nem nascidos e eu já pixava. Vivemos em uma democracia e cada um devera saber o que e melhor para si, não sou eu quem vai decidir.” – finaliza.