Entrevista Thiago MUNDANO

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01) Da onde vem o nome MUNDANO?

R: O nome vem de um adjetivo que a princípio é pejorativo e que esta em desuso aqui no Brasil e é derivado de “mundo”. Sempre fui intrigado com essa palavra e eu mal sabia seu significado quando escrevi ela pela primeira vez na parede. Depois fui pesquisar mais e descobri que vem do latim “mund?nus” e por isso está no dicionários de diversas linguas que se originaram do latim como o português, espanhol, italiano e o inglês por exemplo. O significado é algo como “referente ao mundo, terreno, comum e é o oposto do espiritual”. Pessoas mundanas sãos ligadas aos prazeres do mundo. Por exemplo, uma “mulher mundana” pode-se entender como uma mulher vulgar ou até uma prostituta. Um “político mundano” é aquele que rouba pois só pensa em si e nos prazeres materiais que o dinheiro traz. Ou seja, o nome que assino por si só já é uma crítica ao sistema, mas procuro transcender o significado do dicionário e povoar a cidade com seres mundanos de olhos grandes que observam atentamente as atitudes das pessoas, de lábios fartos que gritam por direitos e de narinas brutas que respiram um ar contaminado pela poluição e o individualismo do ser humano.

 

 

02) Te preocupa o fato de ter seu nome de rua tão exposto na mídia? Já passou por alguma situação delicada por causa disso?

R: Não, porque sei que o meu corre é verdadeiro e não mudou com a exposição na mídia. Meu trabalho e minha luta continuam as mesmas, só que transcenderam as ruas e hoje chegam onde meus rabiscos ainda não chegaram. Na real já fiquei preocupado sim, mas não por estar na mídia e sim por desdobramentos que a exposição positiva trouxe, por exemplo quando mais de uma vez recebi relatos de professores que mostraram meu trabalho para diversas turmas de alunos em escolas de cidades que eu nunca nem pintei, e isso fez eu procurar ser ainda mais responsa na minha missão e amadurecer meu trabalho.

Situação delicada passaram alguns veículos e jornalistas comigo, pois sou chato e costumo bater de frente com a mídia pra conseguir passar a ideia que eu quero e não a que eles querem. Existe técnica pra tomar o espaço nas mídias assim como tem técnica pra tomar um muro, apesar de serem suportes e processos completamente diferentes. Acredito que a arte tem o poder de hackear a mídia de massa e tenho refletido muito sobre isso. Outro ponto interessante nesse assunto é que hoje é essencial criarmos nossas próprias mídias, oferecendo uma informação mais independente e verídica. Mas nada supera a exposição que a rua proporciona para meu trabalho. É outra pegada e outra interação, por isso não me vejo fora dela e vejo a exposição na mídia como uma extensão do alcance das minhas mensagens.

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03) Hoje em dia, quase não se fala do seu trabalho sem associá-lo aos catadores de lixo. Como era seu trabalho antes de conhecê-los? Como surgiu o interesse em ajudá-los?

R: Catadores de materiais recicláveis! Lixo é apoio que a sociedade e o governo dá a eles. É mais ou menos assim que faço com os jornalistas…hahaha

Meu trabalho nas ruas começou com rabiscos inocentes de pivete em 1999 assinando DMENT no bairro que nasci, Brooklin. Depois entrei pro pixo SJS com uma mulecada da área e fui influenciado por um amigo, o JR do SKID, que infelizmente sofreu um acidente gravíssimo catando um pico em 2002 e isso foi um grande choque pra mim e aí eu dei uma brecada forte nos roles, mas nunca parei totalmente. Foi só em 2006 que comecei a assinar MUNDANO e vivenciar a rua para além do muro. Em 2007, no início do Cidade Limpa na gestão do maldito Kassab, eu estava numa atividade frenética nas ruas levando todos muros cinzas que eu encontrava no caminho. Eu usava praticamente só rolinho e latex e por isso que tirei esses personagens com traços mais brutos e simples. Quanto mais apagavam meus trabalhos de cinza, mais eu queria pintar e protestar com minhas frases críticas relativas aos problemas do entorno, e assim , fui desenvolvendo o que eu chamo de “graffiti paporreto”.

Foi numa madrugada no início de 2007 que eu cheguei pedindo licença pra um carroceiro que era morador de rua pra eu escrever no muro da “casa” dele, e na empolgação de sua reação ofereci pintar a carroça dele também, ele topou e ai vi que mexi com a autoestima e que as minhas frases dessa forma podiam circular e a prefeitura não podia apagar. Ai num parei mais e já são mais de 220 carroças que pintei em diversas cidades do Brasil e do mundo, sempre com frases que procuram dar voz e reconhecimento pra esse trabalho tão honesto e importante pro mundo. Em 2012, depois de vivencias puxando carroça vi que minha ajuda tinha que ir além de uma pintura e que com mais gente a luta seria mais forte. O que era um ativismo pessoal, virou um movimento colaborativo com o nome de Pimp My Carroça, onde viabilizei de modo independente recursos com doação pela internet pra ir além das pinturas, e então fizemos uma grande ocupação e protesto no Anhangabaú, onde reformávamos as carroças e instalávamos itens de segurança nela e para o catador oferecíamos óculos de grau, ,diversos atendimento médicos e bem estar e itens de segurança para seu trabalho. Hoje são mais de 170 catadores atendidos, milhares de apoiadores, mais de 800 voluntários e 200 artistas urbanos que participaram. O processo foi todo natural, afinal o graffiti ta na rua assim como os catadores, e ambos são marginais e aos poucos estão sendo olhados como parte importante dessa sociedade.

 

 

04) Seus trabalhos quase sempre retratam um universo de personagens, cabeças e cactus, constantemente em um mesmo leque de cores/tons. Qual o significado?

R: A intenção é povoar a cidade com personagens com uma identidade própria, que as vezes observam e as vezes gritam por direitos e outras questões locais. Os cactos simbolizam a resistência do povo brasileiro que em sua maioria vive com pouco e é forte. Dá flor, mas também tem espinhos.

 

 

05) Nesse ano você teve contato direto com a Martha Cooper, umas das mais respeitadas e reconhecidas fotógrafas do movimento Hip-Hop. Como foi essa experiência?

R: Sensacional. Descobri por acaso que ela tinha premiado o Pimp My Carroça em um concurso de streetart do MoMA que já tinha rolado faz um tempo e ai fiquei de cara. Um mês depois fui convidado pra dar uma palestra e pintar em Soweto, Africa do Sul, em um evento de 10 dias pra jovens empreendedores sociais de lá, quando recebi a programação do evento vi que ela também fazia parte. Chegando lá no primeiro dia já caímos juntos no role com uns artistas sulafricanos e ai foi um role por dia, mó vivencia. Cheguei a ficar horas com ela conversando e esperando o trem passar lotado pra ela fotografar os surfistas de trem que passavam em frente da “Freedom Square”, lugar simbólico da resistência da população negra nos anos 50, muito antes do terrível “Massacre de Soweto” que foi um dos estopins para a luta ganhar força e culminar no fim do Apartheid em 1994. Visitei museus com ela e conversamos sobre diversos assuntos entre nós e com liderenças e pessoas locais. Aprendi demais com a humildade, sabedoria e jeito apaixonante que ela leva a vida. Ela é daquelas pessoas com uma energia boa e que será sempre jovem. No dia da palestra ela pediu pra juntarem nossas falas num bloco só, ai ela contou como começou a fotografar os trens até o que ela faz hoje, e ao final me apresentou pro público e contei a minha caminhada e ao final rolou um bate-papo entre nós com as perguntas que surgiram, nem acreditei . Mais legal que tudo isso foi ver a Martha Cooper inspirada pelo Pimp My Carroça e engajada na causa. Ela passou a notar e fotografar os catadores nas ruas de diversas cidades por onde viaja e começou a postar e me mandar. Estou muito feliz de ter essa rainha do graffiti fortalecendo essa luta de reconhecimento dos catadores e tenho a ideia de fazer uma exposição dela aqui em São Paulo com todas essas fotos em 2015. Acredito que ela leva essa questão dos catadores a um nível global e pode engajar mais artistas nessa cena e esse é a fita!

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06) Quais são suas inspirações fora das ruas? E dentro delas?

R: Certamente um contato mais forte com a natureza. Ficar descalço e andar pelo mato, mergulhar numa cachoeira, no mar, isso me purifica e me inspira porque a energia em São paulo é pesada. Preciso recarregar as energias se não eu surto. Nas ruas o que me inspira são as atitudes das pessoas, os problemas e virtudes da cidade e tudo o que eu vejo, escuto e respiro.

 

 

07) Você conseguiria viver fora do Caos de São Paulo?

R: Me sinto hoje dependente desse caos na selva de concreto, mas sou bicho de mato e cultivo uma vontade de viver em maior contato com a natureza. Sinto que aqui no momento minha missão faz mais sentido. Mas cada vez mais quero viajar por esse mundão pra realizar minhas pesquisas e lutas. Tem muitos muros mudos pra quebrar nesse mundo imundo.

 

 

08) Qual a importância da cidade no seu desenvolvimento como artista?

R: Total. A cidade te ensina tudo o que você busca. Ora te acolhe e presenteia, ora te castiga e te expulsa. Amor e ódio, combustíveis viciantes para meu desenvolvimento artístico.

 

 

09) Seus graffitis quase sempre tem uma conotação política/social. Como vê a importância desse tipo de intervenção com cunho social?

R: Vejo como algo natural do ser humano que começa desde os primeiros rabiscos nas cavernas, até a pixação política pra derrubar um ditador, são expressões presentes no mundo todo e tem um poder fantástico de atingir as pessoas. Em diversos momentos de nossa história recente essas intervenções estiveram presentes e acredito que nunca acabem. É muito importante intervenções nesse sentido, principalmente quando a mídia de massa não trata do assunto e pelo graffiti ser feito de forma livre e independente e estar na rua todo mundo passa e se mistura.

 

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10) Tem interesse de ingressar na política algum dia?

R: Todos nós já estamos ingressados nela e praticamos política diariamente sem saber. Faz pouco tempo me dei conta da dimensão disso e percebi que faço a minha honestamente e de forma voluntária. O melhor é que nem precisamos usar terno e gravata e conviver com vermes individualistas que não representam o interesse do povo que os elegeu, recebem um salário desproporcional pelo trabalho e ainda tem coragem de desviar recursos de hospitais e escolas.

 

 

11) Já teve experiências ruins com o graffiti/pixação? Como foi?

R: Os incontáveis enquadros políciais, os passeios de viaturas e passar uma noite numa cela sem janela e toda mijada são experiencias desagradáveis mas que fizeram eu valorizar a liberdade de uma forma que eu desconhecia antes. Experiências ruins mesmo foi acompanhar a recuperação do SKID-Jr em 2002 e quase 10 anos depois presenciar a escalada em que o Guigo do Néticos caiu e perdeu a vida. São situações em que eu senti como nunca o quanto essa vida é frágil e breve, e por isso que temos que focar nosso tempo pra coisas que realmente importam e nos fazem se sentir vivos.

 

 

12)Se arrepende de algo nesses anos de caminhada?

R: De não ter pintado uma par de muro, pilar, portas de aço, berau e carroças quando tive oportunidade.

 

 

13) Como teve contato com o Beside Colors?

R: Acho que foi quando vocês postaram em 2011 sobre a exposição Teto e Tinta que organizei com uma banca de artistas que pintaram miniaturas de casas e doaram pra arrecadar recursos pra construção de casas de emergência.

 

 

14) Espaço livre pra falar o que quiser.

R: Valeu Beside Colors pelo convite e por registrarem essa cena fantástica de uma forma tão legítima. Muito respeito!
E claro, valeu a você que teve paciência e ainda está lendo isso aqui agora!

“A arte na rua, seja um pixo preto fosco ou um mural maravilhoso, é uma arma poderosa que ainda estamos descobrindo como usar e pra onde apontar.”

Abraços mundanos!

 

 

Lendas da Pixação – H20 (Brasa)

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Original de Taipas, Brasa veste a camisa do H20 desde 2001. Com nomes como Stanley, Ringo, Gosinho, Pansa e Tripa juntos no time, Brasa vê a pixação como uma forma legitima de protesto, não esquecendo é claro da diversão com os amigos e da dose de adrenalina que a pixação pode oferecer. Muito respeito!

 

P.Dog (EUA)

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Lixomania – Prezas

Rapto

GEEK

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R.I.P. Trigz

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” I never gave a fuck about style as much as getting up. Give me some silver and black and I’m out to smash the streets of Los Angeles. All I have to say to them is get off the computer and go paint the streets. Don’t talk about it, be about it.”

 

Atuante durante bons anos de sua vida na arte urbana de L.A. e integrante de crews lendárias como ICR e MSK, Trigz foi morto no dia 9 de outubro em North Hollywood com um tiro fatal. Deixou 5 filhos e milhares de amigos.

 

De acordo com autoridades policiais o disparo aconteceu por volta das 5 horas da tarde por um homem ainda desconhecido.

 

Acusado pelas autoridades da região por vandalismo na década de 90, Trigz sofreu as consequências de seus atos e cumpriu pena na Prisão Estadual de Ironwood em Blythe Califórnia por alguns anos de sua vida. E olha que nunca o pegaram literalmente em fragrante.

 

Conhecido também por trabalhar no ramo de tatuagens e body piercing, Plebey colecionava amigos conhecidos como Chris Brown e Travis Barker assim como participações em filmes e vídeos da cultura underground de L.A. Muito respeito!

SEFU (EUA)

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Omega (ESPANHA)

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