John Howard: Graffiti made in USA

Lorem ipsum dolor

John Howard é uma figura um tanto quanto caricata. Com mais de 70 anos, o artista de barba, cabelos brancos, óculos escuro e seu inseparável chapéu pode parecer aos olhos de muitos mais um ‘gringo’ da Vila Madalena ou Pompéia. Apesar do sotaque americano que carrega, o artista, diferentemente do que se pensa, está mais pra João do que pra John.

Há mais de 40 anos por aqui, Howard é definitivamente brasileiro por opção. Nascido em Detroit em 1938, John teve seu primeiro contato com brasileiros ainda jovem. Cursando engenharia pela University of Detroit, o artista se tornou amigo de três estudantes do Brasil durante um programa de estágio em Michigan. Até então morar ou conhecer o país latino-americano não fazia parte dos seus melhores sonhos.

Só em 1963, após regressar de São Francisco onde estudou artes, John Howard finalmente resolveu fazer uma visita a seus amigos que moravam ao sul da linha do Equador. E a história da viagem que perdurou mais de 5 meses foi digna de livro. Jonh conheceu México, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá e Colombia antes de adentrar em terras brasileiras.

Sem dinheiro, Howard mendigou caronas em balsas, carros e até aviões para chegar são e salvo em São Paulo, de maneira ilegal. Na metrópole presenciou o golpe de 64, conheceu a cidade e já matutou em sua cabeça o que poderia fazer com a arte paulista que desde a ‘Semana de 22’ necessitava de novos ares.

Curiosamente foi longe da correria de São Paulo que John fixaria residência. Em uma baldeação em Araçatuba ficou maravilhado com a tranquilidade da cidade e os passeios de charretes da cidade do interior de São Paulo. Lá conheceu a mulher com quem casaria.

Já com a esposa, John voltou aos Estados Unidos e em 1973, nove anos após a primeira vinda, viria com seu visto definitivo para São Paulo. Queria que sua mulher, grávida do primeiro filho, desse a luz em território brasileiro. Em Araçatuba ficou por mais de 5 anos e ministrou aulas de poesia, inglês, desenho e história da arte no Instituto Noroestino de Tecnologia, Educação e Cultura. Só no final dos anos 70, no auge da ditadura, John se mudaria em definitivo para São Paulo e encabeçaria um movimento cultural que mudaria alguns alicerces da arte paulistana.

Seus primeiros trabalhos na rua como grafiteiro se tornariam uma marca registrada do artista. Com intervenções e personagens coloridos pintados em postes de luz, John mostrou seu cartão de visitas à cidade que lhe acolheu tão bem. Talvez fosse o ‘start’ que a juventude precisava para se movimentar e começar a expressar suas artes nos muros da cidade. Um desses garotos, pupilos de Howard, foi Rui Amaral, artista que anos depois dividiria muros com o veterano americano pelas ruas da Vila Madalena e se tornaria nacionalmente conhecido.

Howard obteve certa notoriedade também por suas frases espalhadas em muros. “Deus se come-se” era uma delas. Instigando a curiosidade de muitos que observavam a arte de Jonh pelos muros da cidade, o artista foi figura presente em jornais e revistas da década de 80 e sofreu, assim como Juneca e Pessoinha, a perseguição de Jânio Quadros. Em janeiro de 1988, funcionários municipais, a mando do prefeito, passavam cal sobre os murais-grafites do ‘buraco da Paulista’ quando um dos grafiteiros tentou proteger sua obra. Era Howard. “Fiquei na frente dos trabalhos, passaram cal em cima de mim”conta sobre o ocorrido.

Hoje, longe dos holofotes e distante também da rua, John se dedica a projetos no campo digital, criando ilustrações e imagens psicodélicas na tela restrita e não tão democrática (comparado as ruas) de um computador. No entanto a essência do graffiti nunca morreu para John. “Você imagina quantas pessoas, milhões talvez, que nunca visitaram um museu, uma exposição ou uma galeria de arte. O grafite proporciona que se leve a arte para estas pessoas porque está nas ruas, qualquer um tem acesso, esta é a força do grafite” finaliza.

Entrevista com o Artista Plástico John Howard, feita no teatro Castro Alves: