Entrevista – Walter Nomura “Tinho”

Em entrevista exclusiva para o Beside, Tinho conta um pouco da sua trajetória nas ruas e seus projetos:

01 – Em muitas de suas obras, feitas apartir de colagens, você retrata um mundo de caos, desordem, carros estraçalhados e prédios que são ejetados do chão. Que importância tem a cidade de São Paulo no seu trabalho?
Toda importância. A cidade de São Paulo é a cidade onde eu nasci e onde vivo. Foi em São Paulo que eu vivi a maior parte da minha vida e descobri todas as coisas importantes que me motivaram a ser a pessoa que sou. Tudo o que eu faço tem uma carga muito grande de toda a energia que São Paulo carrega. Devo a São Paulo toda a minha existência.

02 – Nas ruas, o seu trabalho tem quase sempre uma temática pesada, com crianças tristes, frases escorridas e em lugares muitas vezes abandonados. Uma infância que é realidade para muitos aqui no Brasil. Até que ponto o Graffiti tem o poder de fazer as pessoas enxergarem e agirem?
O graffiti quando é bem executado, é como um soco na cara ou no estômago. Ele vai onde as pessoas estão. E vai também onde as pessoas não estão, mas que ja estiveram ou ainda vão estar. O graffiti tem um lance de comunicação muito forte e, geralmente os graffiteiros sao pessoas muito inquietas, que não se calam e querem falar o que pensam, que não cruzam os braços e ficam vendo as coisas acontecerem. São pessoas que lutam pelos seus direitos e por aquilo que acreditam. Por isso saem as ruas e correm todos os riscos que correm so pra deixar ali uma marca ou uma mensagem. As pessoas que estão nas ruas vendo os graffitis acabam vendo toda essa disposição e muitas vezes se identificam com aquilo porque geralmente, as insatisfacões são as mesmas. E ver que alguém ta la na disposição pra mudar também as encoraja a fazer algo, a lutar.

03 – Como é estar presente e atuante ainda na cena do graffiti? O que mudou do graffiti “velha-guarda” que você fez parte para hoje?
Po.. É muito gratificante. Ver a cena se formar, ver ela crescer. Conhecer as pessoas que entram e se tornam parte, ver que elas acreditaram em uma parada que você também acreditou la atras e que continua acreditando… tudo muito bom. Sentir a energia dos mais jovens, da saudade da energia que eu tinha quando tinha a mesma idade. Do comeco pra ca, muita coisa mudou. A cena cresceu muito. Antes eram poucos os grafiteiros e todos eram como uma família. Com o crescimento, veio uma competição maior por espaços e fama. Começaram a rolar umas tretas e hoje é difícil você conhecer todo mundo como era antes. Mas ta legal, muitas idéias novas chegando, novas visões, novas caras. Quem ganha com isso é a cidade.

 

 

04 – A pixação pode ser considerada o movimento mais original e verdadeiro do cenário urbano brasileiro. Qual sua ligação com o movimento?
Não curto muito essa idéia de mais isso ou mais aquilo. Acho que todos os movimentos tem o seu valor, a sua ideologia e o seu merito. Eu não acho que sou mais do que ninguém e também nem menos. Eu faço o meu corre e cada movimento também faz o seu. Cada movimento tem a sua importância, pelo menos para os que gostam e fazem parte dele. E cada ser humano tem o seu valor e seu merecimento. Dizer que um é mais do q o outro eu não concordo. Mas eu vim da pixação. Meus primeiros traços na rua foram fazendo pixação. Foi com a pixação que eu descobri o prazer de pintar na rua, na pixação encontrei meus primeiros amigos que tinham essa pegada de sair marcando a cidade e fazer disso suas vidas. Ganhei e perdi muitos amigos nessa. valorizo a cena e continuo amigo de todos que conheci desde o começo.

05 – Quais são suas principais referências?
Tenho muitas e fica ate injusto citar umas e não outras… mas o movimento punk, a pixação, o graffiti, a rua e o skate são muita referência pra mim. Hakim Bey, Nietzche, Baudrillard, Van Gogh, Rauschemberg, Minerva Cuevas, Herbert Baglione, Vitché, os gemeos, Binho, Speto, Blu, Adam Neate, meus pais, Maurizio Catellan, Ai Wei Wei, Sonic Youth, Beastie Boys, Larry Clark, Mark Gonzales, Xuim, Krelos, Lixomania, Racionais, Gog, Sabotage, Kamau, Colera, Rratos de Porão, Plebe Rude, Garage Fuzz e mais uma par de gente são todos grandes referências pra mim. Se eu ficar aqui citando todos, escrevo um livro maior que a bíblia, por isso acho injusto citar so esses que citei.

06 – Pra quem está nas ruas pintando, o graffiti na sua essência, illegal e contraventor, pode trazer aos seus praticantes alguns problemas com a justiça. Qual a sua posição sobre isso? Já teve alguma experiência?
Já tive várias… não só com o graffiti, mas também sendo parte do movimento punk e do skate, ja fui muito enquadrado e fichado. Já dormi na delegacia algumas vezes, mas isso tudo faz parte. Se você quiser ganhar elogios do sistema, seja o funcionário do ano numa repartição pública. O graffiti é pra quem é contra e não tem medo da repressão.

07 – Viver de arte urbana e murais hoje é uma realidade. O investimento e os inúmeros projetos pelo mundo mostram uma nova fase emergindo. Quais são suas expectativas quanto ao futuro dos artistas plásticos que tem trabalhos na rua?
Eu aprendi a não ter muitas expectativas. Ter expectativas quase sempre acaba em frustração e stress. Acho que tudo rola por merecimento e o merecimento vem através do sangue, suor e lágrimas doados. Muitas vezes, nem quem merece tem o direito ao seu prêmio. Então, alem de se fazer merecedor, você tem que lutar com unhas e dentes por aquilo que você quer.

 

 

08 – Atualmente o graffiti vem sofrendo uma transição muito grande. O que você acha desse movimento de pintar rooftops e laterais de prédios? Daqui em diante como você imagina a cena, qual será o próximo passo?
Acho do caralho! É disso q eu gosto. Não é uma coisa que eu faço, mas valorizo muito quem faz. Acho que é isso mesmo, é tomar a cidade, porque ela é nossa. Eu to mais na pegada de fazer uns trampos mais pensados e mais trabalhados, a minha idade e as minhas responsas não me permitem mais fazer coisas assim, mas é isso que falo quando digo que eh bom ver a energia dos mais jovens na cena. O próximo passo é pintar o céu e a lua. E não pense que isso é impossível. Alguém vai fazer isso um dia e eu acho que nao vai demorar.

09 – Como teve contato com o Beside Colors?
Através de vocês mesmo… bem legal a atitude. Eu valorizo todos os que se movimentam e criam movimentos. Até agua, parada, vira veneno. Então, tem que movimentar. Um blog já bota a galera pra se informar, discutir, pensar e ate mesmo agir. Valorizo.

10 – Espaço livre para falar o que quiser.
Então… eu to participando de um prêmio online que é um prêmio importante dentro do circuito de artes brasileiro, o PIPA. Fui indicado pra participar, consegui me classificar pra final e agora eu preciso da colaboração de todos pra conseguir levar não só o meu nome, mas tudo aquilo que eu represento. O graffiti, o skate, o punk, o cidadão que não concorda, etc…
Só de participar, já pode ser uma inspiração pra muita gente que como eu, veio da periferia, que não é filho de ninguém e não tem Q.I. nenhum. Mas se eu ganhar, o sonho ja cresce. Quem ta comecando agora pode sonhar mais alto. Não tem que ter pressa, mas tem que correr atras. Então eu vou pedir pra todos que lerem essa entrevista, que me deem um voto de confiança porque eu levo isso a sério e quem me conhece sabe que eu não conquisto nada sozinho. Uma conquista minha é uma conquista de todos que tão do meu lado. O link pra votar é esse:

http://www.pipa.org.br/pag/tinho-walter-nomura

É  só entrar no site e dar um clique no botão “VOTAR” que fica em um quadro no canto superior direito. Valeu!