Um rolê com Wanto em Tóquio, a capital do graffiti asiático

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Em 2016, Ray Mock da Carnage aterrissou na terra do sol nascente e documentou a cena local da mais importante cidade japonesa: Tóquio. Ultra vigiada, com grafiteiros presos e muito buff, Ray encontrou-se com o maior expoente do graffiti, Wanto.

Segue a reportagem da Vice na íntegra, traduzida por Marina Schnoor.

Para entender a cena do graffiti na Ásia você tem que ir pra Tóquio, a meca da arte de rua da região e fonte de muitos estilos que você vê nos becos e muros de Hong Kong, Taipei e Seul. A crew de graffiti mais importante em Tóquio é a 246 — eles contam com membros do Japão, México, EUA e Taiwan, incluindo MQ, SODUH, PEAR, RESQ, SAYAM, YU e ZOMBRA — além do famigerado fundador do 246, WANTO.

WANTO é conhecido por seu “W” pontiagudo e sua tag característica legível tanto na vertical como na horizontal. Seu estilo é um produto do meio dos anos 90, quando, inspirado por grafiteiros americanos, WANTO foi da pintura de obras coloridas para o bomb com tags e thow-ups.

 

 

Em 2004, o nativo de Tóquio viajou pelos EUA com o colega grafiteiro SECT, e acabou se associando à conhecida crew americana MSK. (As explorações da dupla são narradas no livro Who amI. Where am I.) NOE, um membro do 246 com quem conversei em Taiwan, me disse que WANTO queria ser mais que apenas o ramo asiático do MSK, então começou sua própria crew, a 246, em 2008, batizada com o nome de uma grande artéria do trânsito de Tóquio. O grupo logo incluiu grafiteiros com estéticas similares e ambições ilimitadas, writers com throw-up legíveis e arrojadas que já eram considerados alguns dos mais ativos em suas respectivas cidades.

Encontrei WANTO num bairro de izakayas de Tóquio uma noite, para tentar descobrir um pouco sobre o estado atual do graffiti na cidade. Ele é um cara tranquilo, confiante, um pouco fanfarrão e muito humilde — sem querer falar em nome de toda a cena do graffiti de Tóquio, ele não quis ser citado nesta matéria. Em vez disso, sugeriu que eu o acompanhasse no corre daquela noite.

Tinha chovido muito naquela tarde e os onipresentes guarda-chuvas transparentes de Tóquio pontilhavam as ruas. Uma noite úmida pode não ser ideal para conhecer os pontos turísticos, mas era perfeita para os nossos propósitos. As ruas estavam quase vazias, e os pedestres e motoristas aleatórios provavelmente estavam mais preocupados com a chuva. WANTO usava seu guarda-chuva como disfarce para seus movimentos, terminando um throw-up duplo numa porta de loja num cruzamento movimentado e se agachando nas esquinas para deixar tags.

 

 

Depois de serpentear pelas ruas escuras ao longo de uma linha de trem por Shibuya, finalmente alcançamos a rua do nome da crew, a Rota 246. Tags e throw-ups dos membros distantes do grupo cobriam quase todo quarteirão, algumas escondidas e apagadas, outras gritando por atenção com em muros bem iluminados. WANTO percorria a rua com determinação, atingindo os pontos perfeitos com seus marcadores e tinta spray.

Logo ele abandonou seu guarda-chuva para ter mais mobilidade, e com a cobertura da noite avançado, não parou de deixar suas marcas até que todas as suas latas estivessem vazias.

Refiz nossos passos no dia seguinte, depois que a chuva passou. Tóquio é o sonho dos connoisseurs de graffiti. As paredes, portas e fachadas da cidade são como um grande livro de visitas. Praticamente cada grafiteiro digno de nota da Ásia já visitou a cidade uma vez ou outra, e alguns pontos estão cobertos com nomes de writers americanos. Na minha viagem pela Ásia, acompanhei o rastro de UFO — um grafiteiro americano que fundou a notória 907 crew — em várias cidades em apenas algumas semanas. Ele tinha estado em Tóquio para uma exposição de arte um pouco antes que eu chegasse, e encontrei seu alienígena, sua marca registrada, em todo canto. O anônimo KUMA e o vândalo que se tornou sensação das galerias NECKFACE ainda têm um ponto famoso em Shibuya que segue ileso, enquanto a lenda americana do bomb MQ também parece manter uma presença constante.

 

 

Mas as ruas são dominadas mesmo pelos locais. Graffitis dos colegas de 246 de WANTO, TOM e RUST, além de grafiteiros japoneses como HENKA, DART, MINT e SECT, vão até onde a vista alcança. Um turbilhão de grafiteiros de Osaca, com seus throw-ups facilmente reconhecíveis (apesar de quase ilegíveis), também cobria os maiores points da cidade. No final das contas são os vândalos japoneses, não os visitantes internacionais de Tóquio, que dominam os muros da cidade — foram os locais que colocaram a cidade no mapa, e são eles que vão manter Tóquio no topo.