Lendas da Pixação: Toniolo

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“O muro é do povo. É o único lugar que o povo tem para se expressar.”

 

Sérgio José Toniolo é uma figura excêntrica e por que não dizer também folclórica das ruas de Porto Alegre. Autodenominado maior pichador da capital gaúcha, o escritor começou sua trajetória nas ruas de maneira tardia, com 37 anos. Em uma época onde o Brasil respirava os ares mais densos da ditadura, o aposentado policial civil era também escritor assíduo das seções de “cartas ao leitor”dos principais veículos de comunicação do Brasil. Contraventor até em suas palavras escritas, a temática de suas crônicas era quase sempre a mesma: críticas ao modelo autoritário de governo instalado no Brasil e as injustiças vividas dentro do sistema policial no qual trabalhava. Afastado com “problemas de saúde” e diagnosticado com “esquizofrênico paranóide” inventados pela corporação e impedido de se candidatar a deputado estadual, Toniolo, por revolta, começou a pichar. “Eu era escrivão da polícia. Em 82, fui aposentado como louco por ter criticado o chefe de polícia. Com o meu afastamento da polícia, começaram a surgir propostas para eu entrar na política. Até o Tancredo Neves me mandou um telegrama. Eu me candidatei a deputado estadual, mas sumiram com a minha ficha de filiação. Sem outra alternativa, passei a pichar em Petrópolis (bairro de classe média em Porto Alegre). Comecei a distribuir spray para a gurizada. Distribuía também giz e pincel atômico” conta em entrevista a Folha de São Paulo. E foi nesse período que o escritor entrou para a história com um ato inusitado e nunca visto antes.

 

Toniolo é preso depois de escrever seu nome no Palácio do Piratini: inscrição presente na foto comprova que o fato foi realmente consumado (Fonte: UFRS)

 

Em entrevista a uma rádio local, Sergio avisou autoridades e definiu horário e dia (dia 17 de março de 1984 às 17 horas) que picharia um ícone militar responsável pela segurança do governador: o Palácio de Piratini. Antes do ato concederia uma entrevista coletiva na Praça da Matriz, situada a alguns metros de lá. Com a atenção voltada a praça e a possível declaração pública, Toniolo se escondeu na igreja e partiu para o palácio militar na hora marcada. “Eles não contavam com a minha astúcia (risos). Entrei na igreja e quando chegou a hora marcada sai da igreja e uma turma de brigadista, uns sete ou oito “seilá”, apareceram pra certamente dizer que eu não podia ir para o lado do Piratini. Ai quando eu disse ‘Boa tarde irmão’ eles certamente ficaram constrangidos que eu era padre e me deixaram passar, mesmo estando com roupa normal” conta Toniolo. Com o caminho aparentemente livre, Sergio chegou ao Piratini e conseguiu finalmente  escrever seu sobrenome, ou quase isso: “Toniol..” antes de ser pego por autoridades que o levaram direto para o hospital psiquiátrico São Pedro da onde escaparia dias depois. Há quem diga que Toniolo não chegou nem a encostar a lata de spray na parede da casa militar, mas há fotos que desmentem isso. “Quando eles viram que eu estava pichando não acreditaram e correram daquele jeito (risos)” relata o veterano.

 

Monumento aos Açorianos em Porto Alegre pichado por Toniolo pela “milésima vez” segundo o próprio escritor (Fonte: UFRS)

 

O segundo passo de Toniolo era ainda mais ambicioso: pichar o Palácio do Planalto. “Eu sai daqui de ônibus (Porto Alegre) no banco número dois e anunciei para a imprensa, para o Jornal de Brasília, o Correio Brasiliense, Última Hora, enfim, todos os jornais do Brasília” relata Sérgio sobre o incidente.  No entanto as intenções de Toniolo foram rapidamente frustradas pelas autoridades. “A polícia federal parou o ônibus, os caras todos de metralhadora, e disseram que era uma inspeção de rotina e que não iam prender ninguém. Como vieram de antemão falando que não iam prender ninguém, que era só de rotina, eu disse: ‘Não! Vocês vão prender a mim!’. Eles iriam fazer o levantamento de mim mas não iam me prender. Como fiz um ‘bororó’ eles acabaram me levando para fora para me interrogar, para saber quem era meu contato dentro do ônibus para avisar a imprensa. E eu disse para o delegado: ‘Meu contato é todo o ônibus! Prende todo ônibus! E fui preso ali mesmo” explana. No final das contas um admirador de Toniolo, no dia seguinte, foi lá e fez a sem contudo ser preso nem ter sua identidade revelada.

Outra história curiosa ocorreu durante o governo de Tarso Genro. O então prefeito levantou imagens das inscrições “Toniolo” que preenchiam a cidade inteira e encaminhou um ofício aos próprios secretários cobrando providências em relação as pichações do antigo conhecido da cidade. Toniolo teve acesso aos documentos e tomou outra atitude ousada: compareceu a justiça munido de seu próprio dossiê. “Tirei foto de onde ele tinha pichado com cartazes, pinturas, sujeiras e coloquei no processo tudo para ver se a justiça iria usar o mesmo critério. Mas a justiça, como todos sabem, tem dois pesos e duas medidas” relata Toniolo. Dono de uma personalidade exêntrica, Sergio coleciona inimigos e fãs no Brasil inteiro. Criador de uma escolinha de pichação, Sergio dava dica a seus pupilos: nunca pichar a casa dos outros, apenas monumentos públicos. Assim sempre teria apoio da maioria e não desagradaria as pessoas sujando suas casas e propriedades particulares. “Vou investir mais em pichação nessas alturas. Fazer o que nessas alturas? Tenho que continuar pichando!” finaliza.