O mundo marginal do surfe ferroviário

Lorem ipsum dolor

Fernando, o belo, não sabe se vai participar
Do próximo campeonato de surf ferroviário
Surfista de trem, surfista de trem (Jorge Ben)

Década de 90, subúrbio carioca, som funk. Trens superlotados nas estações mais distantes e pessoas amontoadas para tomarem o rumo do trabalho não era e ainda não é coisa muito chocante pra quem vive afastado dos grandes centros. Tal fator pode explicar o surgimento de jovens que se equilibram entre a vida e a morte em cima de vagões: os surfistas de trem. No entanto a existência deles não é tão simples de ser explicada.

Estações lotadas: cena constante nas periferias de todo o Brasil.

“Estava em um trem indo em direção a Juiz de Dentro, onde ficava meu emprego, trabalhava lá mesmo. O trem estava muito lotado, senti que não dava para entrar e não podia chegar atrasado no serviço. Vi vários subindo e subi junto. Quando cheguei em cima senti aquela sensação, meio amedrontado pela primeira vez pois não tinha experiência nenhuma. No primeiro dia já senti aquele prazer de estar sentido (sic) aquele vento, sem estar abafado como lá dentro. Então comecei a surfar” conta Claudionor Batista ao documentário Especial da TV Manchete.

Clique de Rogério Reis: prática ilegal e ímpeto suicida.

Longe das ondas de Waimea ou Jaws, muitos jovens inventaram seu próprio surfe e também perderam suas vidas por descuido, caindo de trens ou eletrocutados pelos 4.400 volts dos cabos de alta tensão da extensa linha férrea (na década de 90 contabilizava-se mais de uma morte por semana). A cultura do surfe ferroviário, sempre muito reprimida, também escondeu problemas sociais maiores do que se pode imaginar, seja no Rio, São Paulo ou nas ruas do Soweto. Mais do que a superlotação, o surfe nos trilhos é também uma forma de meninos a margem da sociedade buscarem adrenalina e lazer, não da pra cravar direito ao certo. É algo bem similar a pichação, a soltura de balões. Eles simplesmente existem.

Pedras obstruindo as portas do trem: modalidade no teto e nas composições internas.

A pena para os infratores era alta, multa e uma pena que poderia chegar a 8 anos de prisão e se reincidente com condenação inafiançável.  Prejuízo para ambos, tanto para a CBTU que tinha que reparar danos nos equipamentos e tirar pedras que os surfistas colocavam no vão das portas para impedir de fecha-las, isso sem contar o atraso das viagens e o esforço de policiais a paisana para prender os jovens.

O surf ferroviário no entanto também ganhou suas outras modalidades tempos depois. Dos trilhos para as ruas, jovens também passaram a se pendurar para fora de ônibus e lotações a caminho da praia e de jogos de futebol.  No entanto, mesmo em dias atuais,  a cultura ainda possui seus remanescentes. Estações foram modernizadas, trens substituídos e o surfe sobre os trilhos por incrível que pareça não morreu. Numa proporção muito menor, mas ainda existe. Resta saber até quando a juventude vai desafiar a morte em busca de adrenalina, diversão e “boas ondas” dropadas em cima de um trem.

Segue a reportagem de Fernando Costa Netto e Marcos Prado para a Trip de 1988 na íntegra:
https://revistatrip.uol.com.br/trip/mar-raivoso-a-ousadia-e-o-protesto-dos-surfistas-ferroviarios-no-rio-de-janeiro
Fotos de Rogério Reis da série Surfistas de Trem (1990):

 

Fotos por Marcos Prado para reportagem da Trip: