“Rodar no Japão é Osso” por Bacal (Túmulos)

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Em um relato exclusivo, Bacal (Túmulos) conta suas vivências como pixador no Japão e como foi viver por um tempo atrás das grades na terra do sol nascente.

O ano era 1994. Depois de “parar” de pixar, Bacal  viu-se numa situação decisiva da sua vida: “Quando eu parei de pixar, eu tava entrando numas erradas de drogas e até crime. Foi então que eu comecei a olhar ao meu redor e vi vários manos sendo preso e se afundando em drogas. Vi que se eu continuasse nesse ritmo o próximo seria eu, foi quando eu decidi mudar os hábitos e começar a praticar um esporte.” – conta Bacal.

Nessa época, enquanto frequentava a ACM que Bacal conheceu sua futura namorada, uma descendente de japoneses. Nessa mesma época começou a frequentar uma associação de nipo-brasileiros: “A família dela já estava trabalhando no Japão e me arrumaram um trampo lá. Fui embora do Brasil em janeiro de 1996 e desencanei de pixação até 1997.” – relata.

Quando chegou ao Japão em 1996 para trabalhar, Bacal estava decidido a mudar de vida e a parar definitivamente com a pixação. Ele mal sabia que sua decisão duraria tão pouco tempo. Um ano depois, Tatei, seu amigo de longa data e também pixador saiu do Brasil com o mesmo propósito e destino: a terra do sol nascente. “Trombei ele lá do outro lado do mundo. Além da satisfação por já sermos amigos a muito tempo fizemos inevitavelmente alguns rolês. Eu e o Tatei quando nos juntamos, 70% da conversa sempre acaba em pixação. Foi assim que comecei a fazer uns por lá.” – conta Bacal.

“Nessa época não pixamos nenhum prédio, só chão mesmo. Fizemos só um rolezinho ‘de leve’ para matar a saudade, mesmo porque em outro país é embaçado você ficar causando. O Tatei morava em outro estado e a gente só se via de vez em quando” – explica. Algum tempo depois Tatei acabou voltando para o Brasil e 1 ano depois, em 1999, foi a vez de Bacal voltar para São Paulo.

De volta ao Brasil mas por pouco tempo, Bacal se reencontrou com outros amigos e pixadores de longa data como Wag (Pigmeus). “Eu já iria voltar no final do ano para o Japão, era meio que um bate e volta tá ligado? Numa conversa com o Wag ele me disse: Bacal faz um prédio lá no Japão e me manda a foto por carta. Aquilo ficou na minha cabeça.”

De volta ao Japão meses depois do encontro com o amigo, Bacal conta: “Fiz o prédio! Cheguei a tirar foto e fiz também uma presa horrível para o Pigmeus (risos) mas nunca mais consegui falar com o Wag, só fui trombar ele de novo quando eu voltei ao Brasil em 2001” – conta Bacal.

Em sua segunda passagem por terras japonesas e já familiarizado com a rotina de um pixador fora do país, Bacal contabilizou mais de 105 prédios feitos, entre 2003 até 2007, ano que marcaria de vez sua história.

Todas as informações, fotos e o relatos abaixo (contado pelo próprio Bacal e transcrito pelo Tatei), foram retirados do antigo blog/site do Túmulos  – www.tumulos1989.blogspot.com

Como aconteceu…

No dia 4 de agosto de 2007 eu estava num evento de hip-hop que rola toda sexta no centrão de Osaka. Estava eu e a minha mina que na época me acompanhava nos roles de pixo. Era tipo umas 11 horas da noite e eu tava com umas 8 latas na mochila, tava doido para fazer um rolê mas minha mina queria ir embora.

Eu ‘febrão’ que nem eu estava na época insisti que queria fazer pelo menos um prédio e acertei com ela que iria fazer só um e depois a gente saia fora. Mas como ela me conhece e sabia que não iria ficar só em um prédio então ela me fez guardar 7 latas e só me deixou com uma. Era a certeza que depois de fazer o prédio a gente iria embora.

Eu deixei as latas no bar de um maluco lá e segui com ela para um rolê a pé sentido minha casa. O plano era achar algum prédio que desse para entrar e fazer e depois ia para o barraco.

E vi um prédio que tava no esquema. Entramos os dois e como ela tava meio emburrada esse dia eu  deixei ela descer e me esperar de quebrada. Depois de eu fazer o prédio eu ligaria pra ela pra gente sair fora. Ela desceu e eu subi até o último andar. Dei de cara com uma porta de ferro e como não tinha nada para abrir eu subi no alçapão da casa de máquinas e pumba! Tinha um vitrô que dava para o telhado do prédio. Suave!

Comecei fazendo as letras finas mesmo porque como só tinha uma lata para depois, ia dar os retoque nas letra para foscar.Esse foi o meu primeiro erro!

O prédio não era muito alto e como dava de frente para outro prédio do outro lado da rua. Eu nem me dei conta mas tinha um ‘bico’ tipo fumando cigarro na janela. Cheguei a passar um pano mas como achei que ele não iria me ganhar ali naquela escuridão, arrisquei.

Me fudi! Porque foi esse mesmo ‘bico’ que chamou a polícia (fiquei sabendo disso mais tarde).

No Japão é o seguinte: não é que nem no Brasil que geralmente em um bairro tem só uma delegacia, aqui tem várias bases pequenas e se alguém liga para a polícia eles chegam rápido! Bem rápido mesmo!

Como eu não tinha me ligado que esse ‘bico’ ai tinha me ganhado eu comecei a reforçar as letras, quando de repente escuto a sirene dos polícia, tipo chegando meio que perto. Eu até parei de fazer e fiquei ganhando, mas quando vi que era na rua do prédio que eles estavam vindo eu gelei!

Sai a mil para entrar no vitrô e passar para a sala de máquinas do elevador. Nessas aí já ralei os braços e quando eu consegui descer do alçapão para sair fora pelas escadas o prédio já tinha sido cercado pelos polícia. Descendo pelas escadas só dava para ou cair pros corredores ou descer tudo e dar lá na portaria. Então eu arrisquei descer.

Nessas aí já tinha polícia subindo pelo elevador e eu desci até o primeiro andar e fiquei de butuca mocado no corredor porque sabia que eles estavam na portaria. Eu tipo queria achar uma saída para pular e vazar mas não teve jeito, me pegaram já no corredor mesmo. Aí começou o veneno!

Ao contrário do que rola no Brasil eu não levei nem um tapa! Só um esculacho verbal. (risos)

Os ‘polícia’ me botaram na viatura para os moradores e o síndico não quererem me dar um coro e chamaram tipo essa outra polícia anti-pixação.

Fiquei na viatura tipo uma hora mais ou menos até esses caras da anti-pixação chegarem. Nisso minha mina já tinha se ligado que eu tinha rodado e chegou junto lá dos policia para ver o que tava pegando.

Quando os polícia anti-pixação chegaram, enquanto dois ficavam tipo me interrogando dentro da viatura tinha mais uns três ou quatro que estavam tirando foto do prédio. Até subiram lá em cima para bater foto das letra, da lata, de tudo.

Só depois que eu fui saber o porquê deles  fazerem tudo isso. Quando cheguei na ‘delega’ para assinar o B.O. é que eu fui informado que eles fazem o seguinte:

Eu estava preso em flagrante por danos ao patrimônio e ficaria à disposição da justiça por no mínimo 6 dias, que era o tempo que eles levam para averiguar e recolher outras provas. Tipo assim, eles tiraram as fotos lá do prédio que eu rodei pixando e iriam comparar as letras com outras letras de outras queixas que eles tinham lá.

Ou seja, essa polícia anti-pixação trabalha assim:

Toda vez que alguém pixa algum barato na cidade de Osaka por exemplo e o dono do prédio, casa sei lá o que vai na delegacia e faz um B.O, eles são acionados e vão lá tirar foto, olhar as imagens das câmeras de segurança que tem no prédio etc e tal.

Como no Japão não é todo mundo que pixa prédio, inevitavelmente quando aparecia um prédio pixado eles eram chamados e iam lá fotografar/registrar tipo num arquivo que tem na polícia.

Resumindo, quase todos os prédios que eu tinha feito em Osaka esses arrombados tinham os B.O.s e as fotos deles (risos). Ou seja, aqui não rola que nem no Brasil, do tipo se você rodou num rolê na Zona Sul já era você só vai assinar o B.O. que você foi preso fazendo, jamais que eles vão atrás de outros barato que você já pixou.

No Japão não, eles tem como te acusar. Na hora lógico que eu neguei e falei que eu só tava nesse rolê que eu fui pego mas o barato não funciona assim não.

Eles tinham as imagens de alguns prédios que eu aparecia quando estava entrando na portaria. Porque aqui as portaria dos prédios quase sempre tem câmera então eu já tava fudido.

Como explicar se eu tinha sido preso em flagrante pixando uma letra num prédio e aparece essa mesma letra em cima de outros prédios e falar q não sou eu? Fácil, é só negar. Mas não adianta ‘porra’ nenhuma porque você é processado do mesmo jeito, porque eles tem ali as provas, as imagem, esses ‘barato’.

Eu só assinei o que eu fui preso em flagrante e o resto foi tudo bronca puxada que eu não assinei mas fui processado do mesmo jeito.

Foto do processo (não o original).


Eu pensei que ia ficar só esses 6 dias até eles levantarem as investigações e depois ia para casa responder em liberdade. Porra nenhuma!

O sistema aqui não é que nem no Brasil, ainda mais se tratando de estrangeiro como no meu caso. Quando fui ver o juiz depois desses 6 dias o ‘FDP’ do juiz alegou que como eu sou brasileiro tinha o perigo de eu fugir para o Brasil durante o processo e decretou a minha prisão preventiva.

Isso geralmente rola com estrangeiros. Se você faz merda você tem que ficar guardado até o final. Ou seja, um processo demora geralmente uns 3 meses até terminar tudo, investigação, promotoria, julgamento, sentença, essas porra toda que eu era leigo na época mas agora to até dando aula de direito (risos).

O começo do Inferno:

O inferno começou para mim quando recebi essa notícia e fui transferido da delegacia anti-pixação para a delegacia comum, tipo onde tinha carceragem. Nunca tinha sido preso no Brasil e nem no Japão.

Enquanto eu tava preso, essa primeira semana lá na anti-pixação era suave porque eu ficava tipo em corro de dia e de noite dormia numa sala. Podia fumar cigarro à vontade e comia os barato que minha mina trazia para mim. Depois que fui para a carceragem lá era venenão!

Você tinha que acordar as 6 da manhã e fazer faxina na cela de cimento e no Japão é frio pra caralho essa época do ano! Água gelada e você só de chinelo. Até aí firmeza porque tá todo mundo no mesmo barco!

O foda era que você não podia fumar e a comida que serviam era arroz com peixe e um chá azedo tipo sem gosto de nada e tudo frio.

Tipo em cada cela era seis vagabundos e você não pode fazer porra nenhuma. Só tem banho de sol pela manhã e são apenas 15 minutos que você tem pra fazer a barba e caminhar tipo numa gaiola e só sai cada cela de uma vez!

Almoça o mesmo que comeu pela manhã ou seja mais arroz com peixe e chá e depois a noite umas sete horas mais peixe e arroz. (risos)

Quando dá oito horas você lava o rosto, escova os dentes e vai para a contagem. É a única hora que você sai da cela de novo. O dia inteiro é tranca!

Você só sai para a contagem. Todo mundo pelado e depois vai buscar os cobertores para dormir porque durante o dia você fica em cima do cimentão lá. Nem cadeira tem pra você sentar!

Às nove horas apagam todas as luzes e você tem que dormir. Depois das nove você não pode mais conversar, tem que ficar de boa até pegar no sono. Chega seis da manhã e começa tudo de novo.

Banho era duas vezes por semana, as terças e sextas-feiras e visita podia ter todos os dias mas eram só 15 minutos e isso que nem naqueles filmes americanos, tipo você de um lado e a visita do outro lado do vidrão (risos). Só pode falar em japonês porque se os polícia que fica lá atrás de você não entende o que você está falando encerram a visita na hora.

Lembro que quando o PSICO veio me visita ele teve que trazer tradutor (risos) porque ele falava em português comigo e o tradutor tinha que traduzir o que ele falava comigo para o polícia. Mó fita!

Nessas eu já estava preso fazia dois meses e veio um jornal do Brasil me entrevistar, tipo um jornal que é de brasileiros que sai aqui no Japão, da editora Abril.

Saiu logo na primeira página do barato! Foi por causa desse jornal que o PSICO ficou sabendo que eu tava preso e veio me visitar.

Foto do Jornal.

Nessa época já fazia dois meses que eu tava em cana e eles só tinham confirmação que eu tinha pixado quarenta e dois prédios, porque eles não conseguiram provar os outros. Esses quarenta e dois prédios eram os que tinham ou a minha imagem em alguma câmera de segurança ou então a minha impressão digital em alguma porta, beral do prédio, sei lá. Não sei como esses ‘FDP’ conseguiram, mas eles são foda, não é que nem no Brasil que nem em crime de morte eles fazem essas correrias.

Por isso que eu fico revoltado com esses ‘bang’! Eu tava preso e fudido lá no Japão, passando mó veneno e os oportunistas estavam falando merda:

Tipo em um site que tá na net até hoje eles escreveram umas merda falando que quando eu tava preso eu tinha falado que era que nem hotel, que as cadeias aqui era mó moleza, uns barato assim, vou até por o link do site ae para quem quiser ver: www.nbjolpuc.wordpress.com

To botando tudo detalhadamente porque que tenho o blog do Túmulos. Tudo o que for a respeito da nossa família vai ser contado por nós mesmos e não através de repórter ‘FDP’ que gosta de distorcer as coisas.

Mas voltando ao assunto:

Já tava dois meses preso e tava começando a responder o processo que eu tinha sido preso em flagrante. Faltava só mais um mês e acabavam as audiências. Foi quando chegou a bomba!

Esses outros quarenta e um prédios que eles tinham provas contra mim iam virar outro processo e eu seria julgado também. Ou seja, mais três meses. Somando com os três do outro processo seriam seis meses! Isso só para eu ser condenado porque era certeza de condenação. Uma vez que eles tinham provas e eu havia sido preso cometendo o delito!

A pena estipulada para esse tipo de crime aqui no Japão é de um ano a três anos de cadeia e multa. Eu tive de ficar seis meses preso e fui julgado já em fevereiro de 2008. Estava preso desde agosto de 2007.

Fui condenado a dois anos e meio de prisão.

Como eu era réu primário, tinha residencia fixa, paguei a pintura do prédio que eu fui preso pixando e minha mina ficou como testemunha e tals. Tiveram várias atenuantes e eu consegui ganhar a liberdade condicional!

Ou seja, cumpri os seis primeiros meses preso e fui condenado a dois anos e meio, porém ganhei a liberdade condicional. Nesse caso se eu rodar pixando de novo nesse intervalo de tempo (dois anos) eu teria que cumprir os dois anos redondinhos em regime fechado.

Por isso que depois dessa fita eu resolvi que não iria mais pixar no Japão, encerrando os meus rolês por aqui porque eu vi que por mais que eu goste de pixação e mesmo morando longe, sempre quis estar fazendo o que eu curto e sempre fiz desde moleque. Mas o preço que eu tava pagando era alto demais.

Resolvi que pixo pra mim só seria em São Paulo agora. Quando eu voltar eu faria uns rolês só para relembrar com a rapaziada.

Para quem lê isso que eu escrevi agora, pensa assim: porra depois dessa até eu parava e nunca mais pensava em pixação. Eu também pensava assim (risos).

Mas como eu sempre digo: pixação é o pior de todos os vícios! Eu acabei fazendo mais rolês mesmo depois de ter rolado isso tudo. Fiz roles com mó galera, mas não mais em Osaka. Ia fazer rolê lá na ‘city’ do PSICO, do ARROTOS e em outros lugares fora da minha cidade.

Mas esse post eu escrevi mais para a galera ficar ciente que pixar fora do Brasil é mil grau mesmo. Por isso quando eu vejo algum rolê de outro pixo de São Paulo aqui no Japão ou então vejo algumas fotos de rolês de pixo na Espanha, França ou outros picos que tem uma galera de São Paulo que mesmo longe ainda faz uns é porque gosta mesmo, eu bato palmas mano!

Fico feliz porque eu to ligado qual é o sentimento que rola, porque pixador mesmo faz em qualquer lugar, não importa se alguém vai ver os pixos ou não! Igual a vários irmãos que estão na caminhada da pixação mesmo depois de ter filho, de já ter tirado uns dias, vários manos que eram da antiga e mesmo assim hoje em dia quando dá fazem uns ainda. Esses sim são os verdadeiros pixadores que fazem porque gostam e não para entrar em nenhum ranking de egos ou para serem a estrelinha do point.

Um salve ao verdadeiros e essa foi a cena que rolou comigo no Japão!