Um rolê com Lixomania em Nova Iorque – Hanging out with Lixomania in New York (Exclusivo)

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Recebemos um convite para expor em uma galeria de Nova York (Martinez Gallery). Para muitos uma experiência nova e desafiadora. Desembarcamos em oito pessoas no dia 1 de março no aeroporto JFK, conhecido aeroporto da cidade. Devia ser por volta das cinco horas da manhã. Levantamos voo em meio ao calor de verão brasileiro e aterrissamos numa cidade que ainda respirava o inverno rigoroso. Num grupo de oito amigos, nos dividimos para encararmos a entrevista da imigração, o primeiro passo para entrar nos Estados Unidos.

We were invited to have our exhibit in a New York gallery (Martinez Gallery). For many of us, a new and challenging experience. We arrived in a group of 8 people on March 1st at the JFK Airport. It must have been around 5 AM. Our flight took off from the heat of Brazilian summer and we landed in a city that was still breathing the harsh winter air. In a group of 8 friends, we divided ourselves to face the customs proceedings, the first step to enter the United States.

Assim como no processo do visto a sorte muitas vezes é o fator prevalecente nessas horas. Se os caras quiserem complicar seu lado é difícil de contornar. Eu e mais três amigos fomos escolhidos para um fila sem entrevistas, era só carimbar e entrar. Zé e os outros pegaram uma fila maior e teriam que responder a perguntas básicas para um americano num guichê. Coisas do tipo: ”Quantos dias vão ficar aqui?” ou “O que vão fazer aqui?”. Tudo rolou tranquilo e mais fácil do que esperávamos, os americanos foram secos, mas não complicaram o lado de ninguém. Ou quase ninguém. Todos com passaporte carimbado menos uma pessoa: Zé. Foi o último a aparecer no saguão para retirada das malas. Tinha sido interrogado.

Like in the process of getting our visa, luck frequently plays a big part in those situations. If the officers decide to be hard on you, it’s difficult to get around it. Me and three other buddies were picked for a line without interviews; it was just getting our passports stamped and getting in. Zé and the others had to stay in a longer line and would have to answer some basic questions to an American officer in a booth. Things like: “How long are you staying here for?” or “What is the purpose of your trip?” It all went very smoothly and it was easier than we expected. The Americans were stiff but didn’t make things hard for any of us. Or almost any. We all had our passports stamped except one of us: Zé. He was the last one to show up for baggage claim. He had been interrogated.

O motivo foi no mínimo inusitado: devido há anos dedicados a pixação, Zé não possuía mais a digital de um de seus dedos. Contou pra gente perdera de tanto apertar lata ou limpar suas mãos com solvente. Coisas do tipo só poderiam acontecer com caras como o Zé, há mais de três décadas rabiscando muros por ai.

And the reason was certainly unexpected: since he had spent years spray painting, Zé no longer had the ridges to form the fingerprint of one of his fingers. He told us he lost it from pressing the nozzle of the paint cans and wiping his hands with solvents. This sort of thing could only happen to a guy like Zé, who had spent over three decades writing on walls around town.

Todos ali cresceram, durante anos, vendo o Zé virar a cidade de São Paulo de cabeça para baixo. Dividir mais de duas semanas com um legítimo profissional da pixação na terra do Tio Sam foi algo muito foda. Zé estava empolgado para fazer o primeiro rabisco em solo americano assim que colocou o pé para a rua. Brincava balançando as mãos freneticamente. Achei que era brincadeira no começo, mas descobri horas depois que estava literalmente em abstinência. E não sossegou até fazê-lo.

We all had grown up watching Zé turn the city of São Paulo upside down for years. Spending over two weeks on Uncle Sam’s land with a true pixação professional was awesome. Zé was excited to leave his first mark on American soil from the moment he stepped onto the street. He kept waving his hands frantically. At first I thought he was just joking around, but hours later I realized he was literally in abstinence. He didn’t calm down until he painted.

 

 

Foto que fiz do Zé ao lado do seu primeiro pixo em Nova Iorque.

Quem fez o translado do aeroporto até o pico que íamos ficar foi um conhecido do dono da galeria. Um cara que ficou encarregado de entuchar todas as malas e mais 8 caras numa van. Fomos apertados ate o hotel que ficava em Manhattan, a uns 10 minutos do Central Park, ou seja, em uma área nobre da cidade. O hotel, apesar da localização, não era nada luxuoso. Dezenas de turistas. Vimos de tudo lá, desde latinos, japoneses, europeus e até uns caras que pareciam alugar quartos lá por uma noite. Na real eram bem sinistros aqueles corredores estreitos. Isso fora as atendentes e os funcionário que eram impacientes pra caralho. Mas foi style demais no final das contas. Nos dividimos em 3 grupos nos quartos compartilhados, deixamos nossas coisas nas acomodações nesse primeiro dia e fomos encontrar o dono da Galeria, que estava bancando a viagem, no hall do hotel.

The guy who took us from the airport to the place we were staying was a friend of the gallery owner. A guy who was entrusted with the mission of squeezing all the luggage plus 8 people inside a van. We went crammed all the way to the hotel in Manhattan, about 10 minutes away from Central Park, meaning it was an expensive area of the city. The hotel, despite its surroundings, was not luxurious. There were dozens of tourists. We saw all sorts of people there… Latino, Japanese, European and even some people who just showed up there to spend the night. The narrow hallways were actually pretty creepy. And not to mention the staff, who were rude and impatient as crap. But in the end, it was pretty cool. We shared rooms in groups of 3. We left our stuff in our rooms on the first day and went to meet the owner of the Gallery — who was paying for the trip — in the hotel lounge.

Esse primeiro dia ficou reservado para isso: se organizar nas acomodações do hotel e trocar uma ideia com o cara que levou toda essa galera pros Estados Unidos. Ele nos levou até uma padaria e de lá partimos para o Central Park a pé, onde trocamos ideias sobre o que ia nos esperar entre galeria e rua. Da pixação só tinha ele e o Guedes (da turma “Os Cururu”) que eu também já conhecia de rolês por aí e bebedeiras na Roosevelt. Outro cara que, na minha opinião, revolucionou a pixação na sua modalidade mais embaçada, a escalada. Duas lendas vivas. O projeto envolvia fazer algo que Zé não fizera até então: expor sua estética para dentro de uma galeria. Além disso, levou uma mala (literalmente) de notícias e fotos da antiga que tivemos a oportunidade de folhear por algumas horas. É um acervo rico de um movimento marginalizado por muita gente. Diria que odiado por 99% da população. Tinha matéria de gente que morreu, de amigos que foram para o crime e, é claro, muita pixação. Acho que muita gente dessa geração é literalmente arquivo vivo do movimento. Muitas histórias ainda devem ser contadas e documentadas para que pelo menos uma parcela disso tudo não seja perdida.

That first day was just for that purpose: settling in our hotel rooms and chatting with the guy who had brought all those people to the United States. He took us to a bakery and from there we walked to Central Park , where we chatted a bit about what was expecting us between the gallery and the streets. The only pixadores there were him and Guedes (from the group “Os Cururu”), who I already knew from social events and drinking at Roosevelt Square. Another guy who, in my opinion, revolutionized the hardest modality of pixação, the climbing. Two living legends. The project involved doing something that Zé hadn’t done until then: bringing his aesthetic inside an art gallery. He also brought a bag (literally) of old news articles and photos for us to look at for a few hours. It was a vast collection about a movement marginalized by a lot of people. I’d say hated by 99% of the population. There were articles about people who died, friends who ended up in crime and, of course, a lot of pixação. I feel like a lot of people from this generation is literally a living archive for this movement. There are a lot of stories yet to be told and documented so at least a part of all this doesn’t get completely lost.

 

Zé com a sacola cheia de latas e os dedos sujos depois de uma noite rabiscando.

 

Pensamentos a parte, na minha opinião, é difícil até acreditar que ele algumas vezes fora alvo de críticas negativas ou comentários mal intencionados. A verdade é que há uma legião de caras que são fãs do cara. E o Zé mostrou mais uma vez seu amor pela pixação e em duas semanas, mesmo não tendo que provar nada pra ninguém.

Daydreaming aside, in my opinion sometimes it’s even hard to believe that he has been criticized or received ill-intentioned comments. The truth is the guy has a legion of  fans. And Zé showed his love for pixação once again during those two weeks, even though he didn’t have to prove anything to anyone.

“Minha única droga é o rabisco sô” – disse mais de uma vez durante esses dias. Em meio as viagens de metrôs Zé contou inúmeras histórias que comprovavam isso. Como quando foi esquecido em uma cela na baixada santista, quando fez uma folhinha para o policial num enquadro ou quando “bagaçou” a cidade da Espanha que seus familiares moram e fez sua mãe chorar: “Acho que foi a única vez que me arrependi de ter pixado algo” – relatou.

“Pixação is my only drug, man” – he said more than once during those days. Between the subway commutes, Zé told countless stories that proved it was true. Such as when he was forgotten in a prison cell in the city of Santos, when he made his pixo on a piece of paper for a cop while he was being inspected by police, or when he went all city in Spain in the city where his family lives and made his mother cry: “I think it was the only time I regretted having spray painted something” he said.

Os dias, no entanto, ficaram reservados para produzir dentro da galeria. Algumas latas tinham sido encomendadas para tal fim e Zé tratou logo de utiliza-las também fora dela. Confesso, poensei que devido as inúmeras câmeras, policiais undercover, vandal squad e toda aquela história que se conta, inclusive de amigos americanos, as coisas não seriam tão produtivas para o Zé. Engano total. Não precisa ser tão sagaz pra saber que o cara que faz isso há mais de 25 anos é um profissional. É certo que ele não daria uma vacilada logo nos Estados Unidos.

The other days, however, were meant for creating graffiti inside the gallery. A few cans had been bought for that purpose and Zé quickly managed to use them outside the gallery also. But I have to say that, with all the cameras, undercover cops, vandal squad and everything else people had warned us about, including our American friends, we thought Zé wouldn’t be able to express himself too much. We were totally wrong. You don’t have to be a genius to realize that a guy who has done this for over 25 years is a pro. He certainly wouldn’t screw things up in the US, of all places.

Dificilmente o Zé colava com a galera no rolê de noite, para beber ou qualquer coisa do tipo. Saia meia noite ou uma da manhã com suas latas, entrava no metrô e descia numa estação qualquer onde ia desbravando a quebrada dos caras. Fazia isso com o Guedes, sozinho ou com quem quisesse acompanhar. O ritmo não era de 30 latas por noite como em São Paulo, mas posso garantir que umas 10 a 15 latas ele esvaziou por dia, facinho. Embaçado..

Zé rarely showed up to hang out with the guys at night, to drink and stuff like that. He’d leave around midnight or 1 AM with his cans, take the subway and get off at a random station to go explore the area. He’d go with Guedes, by himself or with anyone who wanted to go along. He didn’t use up 30 cans a night as he usually does in São Paulo, but I can assure you that he easily went through 10 to 15 cans a day. Hardcore.

 

Lixomania em ação: teve que trocar as Colorgins pelas Montanas.

 

Já tínhamos feito rolê com o Zé em Sampa. Ele é bem meticuloso, tem que passar pano aqui, ficar parado ali para cobrir suas ações. É uma coreografia treinada há anos. E posso dizer que é quase sempre infalível. É só seguir o passo a passo direitinho que dá certo. E fez rolê assim desde Coney Island, na ponta da ilha até o coração de Nova York, Manhattan. Durante a viagem foi até convidado para a festa da Martha Cooper, que mora a alguns metros do nosso hotel. Acabou declinando. Motivo: preferiu ir para a rua pixar.

We had been out with Zé in São Paulo. He’s pretty meticulous, always someone on the lookout and keeps an eye out to cover up his actions. It’s a choreography he’s been doing for years. And I’d say it’s pretty much infallible. You just follow the steps and everything work out fine. And he went around doing that from Coney Island, on the edge of the island, to the heart of New York, in Manhattan. During the trip he was even invited to Martha Cooper’s party, who lives a few yards away from our hotel. He declined the invitation. The reason: he preferred to go paint on the streets.

E foi assim nos 16 dias que se sucederam. Depois da abertura da exposição ainda teríamos 4 dias para curtir o dia inteiro a cidade, sem as responsas de galeria. Religiosamente todo dia Zé comia pizza de um dólar e pixava até não dar mais. Nada de museus, rolês ou baladas. Só tinta! Ele até que passou na Times Square ou deve ter visto a estátua de longe. Até a volta para o “Brasa” foi assim.

And it was like that for the 16 days that followed. After the opening of our show, we’d have 4 days to spend just enjoying the city, without worrying about the gallery. Every single day, Zé ate that one-dollar pizza and spent the rest of his time doing graffiti. No museums, dance clubs or bars. Only paint! He went by Times Square a few times and must have seen the Statue from afar. Even the return to Brazil was like that.

 

 

Zé e Guedes dentro de uma galeria: fato inédito até então.

 

O último dia ele pegou tudo e mais um pouco de tinta que estava no hotel e tratou de dar um fim em todas e voltar só de manhã. Tem muita coisa que ele mesmo nem tirou foto. Muito role que só americano viu ou acabou sumindo horas depois. Nos Estados Unidos, apesar da quantidade grande de graffitis, o combate acontece na mesma moeda. Muita coisa é apagada do dia pra noite. Ou melhor, da noite para o dia.

On the last day, he took all the spray cans there were left in the hotel and managed to use them up, and only returned to the hotel at dawn. He didn’t even take many photos. A lot of stuff that only Americans would see or ended up buffed out. In the US, even though there’s plenty of graffiti around, the fight is still hard. A lot of stuff is painted over or washed off overnight. Literally from one night to the following morning.

 

 

Lixomania num rooftop clássico de Nova Iorque: acho que o único que o único rolê que vi dele datado.

 

Dia 16 de março nos despedimos de alguns amigos na frente do hotel e retornamos para o mesmo aeroporto que tínhamos chegado. Estávamos não mais em 8 pessoas, mas em 7 agora. Guedes, que acabou resolvendo seu passaporte de última hora para ir para os Estados Unidos, resolveu perder a passagem e ficar em solo americano. Foi o último a ir e o único a ficar. Até o final dessa matéria ainda estava lá, fazendo miséria em prédios e mostrando um pouco do apetite dos pixadores. Conheceu até o Canadá e me disse que não volta tão cedo. Acho que vai esticar até o velho continente sua viagem. Bem maloca! E merece demais!

On March 16th we said goodbye to some friends in front of our hotel and went back to the same airport we had arrived at. We were no longer a group of 8 people, but of 7. Guedes had managed to get his visa for the US last minute, and he decided to change his flight and stay on American soil a while longer.  He was the last to go and the only one to stay. While I finish writing this article, he is still there, writing all over buildings and showing off some of the appetite of the pixadores. He even went to Canada and said he doesn’t plan on coming back anytime soon. I think he’ll even go visit the old continent. Crazy dude! And he deserves it all!

Voltando ao Zé, posso dizer que antes das redes sociais ele conservava uma mística ainda maior, era como que uma entidade da pixação, vista em revistas, documentário e um material muitas vezes escasso. Mas depois dessa viagem posso dizer que o Zé literalmente nunca perdeu sua essência. Nunca. A tecnologia chegou, mas o amor por rabiscar acho que nunca vai sair dele. O Zé é literalmente um caso a ser estudado pela ciência. Quando ele diz que tem preto fosco na veia acho que estou disposto seriamente a acreditar!

But coming back to Zé, I’d say that before social media, he had a bit more mystery to him… He was almost like a pixação entity, seen only in magazines, a documentary and a few other articles. But after this trip I can say that Zé literally never lost his essence. Never. Technology has grown, but his love for pixação will never leave him. Zé should literally be a case study for science. When he says he has jet black running through his veins, I can almost believe him!

Separamos algumas fotos dessa viagem para terem noção (um pouco claro) do que o Zé aprontou literalmente na Terra do Tio Sam:

*Fotos por: Mike Ion, Carnage, Martinez Gallery, D2Nut e arquivo pessoal.