Entrevista – WOLFS (Jé)

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Wolfs foi figurinha carimbada dos anos 90. Já fez rolê com todos os escritores (ou quase todos) que fizeram miséria nas ruas de São Paulo. Com 25 anos de pixação nas costas, Jé conta um pouco da sua trajetória, suas amizades e como enxerga as redes sociais na movimento.

“Me tornei um pixador quando quando comecei a deixar meu salário do dia 05 e dia 20 na casa de tinta”.

01- Pergunta clássica. Porque WOLFS?
Meu início no movimento foi em 1991. Usava as siglas JRS, uma abreviação do meu nome. Depois entrei para o BATS mas pixava somente no meu bairro. No fim de 1992 entrei para o WOLFS que já existia com o nome THE WOLFS. Nessa época a maioria dos pixos do ABC eram com nomes gringos.

02 – Em que momento da vida você se viu real e verdadeiramente como um pixador? Tipo, agora não tem mais volta… (risos).
Me tornei um pixador quando quando comecei a deixar meu salário do dia 05 e dia 20 na casa de tinta. O que sobrava do salário usava para me locomover. Para sairmos do ABC para pixar tínhamos que usar o trem e raramente dava para “pegar” algum sem pagar.

03 – Durante todos esses anos você conheceu e pixou com muita gente. Com que escritor teve uma sintonia maior na hora de pixar?
Essa é uma pergunta complicada. No início teve o Dú (WRS) e a rapaziada do FÚRIA como referência, mas a minha trajetória na pixação, partindo para outros lugares, foi através dos rolês com o lendário Zé (LIXOMANIA). Em 1996 ele foi morar na Espanha e muitos desacreditaram que eu iria continuar. Isso foi um combustível para eu apresentar o WOLFS para o movimento. Comecei a frequentar vários points, festas e virei amigo de muitos pixadores. Estávamos no auge da pixação da década de 90.

 

LIXOMANIA (Zé) + WOLFS, um dos principais parceiros de Jé em 25 anos de pixação

 

04 – Você teve um convívio próximo com o Goiaba (RBS) e o LIN2. Como foi conviver com dois importantes e icônicos nomes da história da pixação que nos deixaram precocemente?
Eu posso dizer que fui um cara privilegiado no movimento. Quando conheci essas lendas eu já era reconhecido no movimento e fazia rolê todos os dias. Foi nessa época que conheci o Goiaba (RBS), o LIN2, o Telo (AFIRMA) e toda aquela “patota” que pixou São Paulo inteira em pouco tempo. Fizemos muitos rolês juntos, viagens e várias baladas! Posso garantir que a pixação não é a mesma depois que essa rapaziada nos deixou precocemente, devida a vida louca que levavam no dia-a-dia. Eu trabalhava, sempre tinha meu dinheiro para bancar minhas necessidades e não me envolvia em outras paradas que não fosse apenas pixar.

 

Jé e LIN 2, em viagem ao litoral de São Paulo.

 

05 – Existe ou existiu algum tempo, diferença em pixar no ABC ou na grande São Paulo?
Com certeza. Na minha trajetória, a maioria dos rolês foi em São Paulo, onde ficavam as principais avenidas cobiçadas pelos pixadores. Os rolês no ABC só aconteciam quando eu levava a rapaziada para pixar por lá. Recentemente tive a oportunidade de pixar um pouco a região do grande ABC, onde praticamente não pixei nesses 25 anos de história.

06 – Em todos esses anos, o que foi mais importante?
O mais importante foi poder conhecer lugares que nunca imaginei que existiam em São Paulo. Aprendi também a me locomover dentro da cidade e o principal, as amizades que preservo até hoje.

07 – E o menos importante?
Foram as inimizades, os invejosos… a pixação não precisa disso! Ninguém é melhor que ninguém. Uns pixam mais, outros menos… Uns pixam no alto, outros no baixo. Para a sociedade somos uma infecção sem cura, então o que adianta querer ser melhor que o outro? Eu penso assim.

08 – Conte pra gente alguma história curiosa da sua trajetória como pixador.
Foi um rolê que fiz com AFIRMA, RAROS, LIN2, FRIDAY 13, PATRÕES e MALUCOS. Eu acho que foi em 1997. Não gostava muito de fazer “pico” mas nesse rolê, que começou em Campanário (Diadema) sentido Zona Sul, apareceu um “pico” muito louco e os caras ficaram alucinados para subir. Não teve jeito! Como eu não podia ficar para trás e também não gostava que fizessem para mim, subi e começamos a pixar toda a fachada! De repente o morador apareceu e a treta começou! Fomos agredidos à madeiradas e quase arremessados lá de cima. Nessa hora, os manos que ficaram em baixo preferiram chamar polícia. Acabamos sendo detidos. Na cela da delegacia, enquanto estávamos presos, o delegado de plantão perguntou: “Quem é que está fedendo!?” Imediatamente apontamos para o Telo. Na hora ele mandou abrir a cela e pediu para que todos fôssemos embora o mais rápido possível! (risos)

Existem muitos rolês para relatar, mais esse foi um dos mais importante e que mais me marcou nesses 25 anos de pixação.

09 – Que pergunta gostaria de ter respondido e não perguntamos. Se houver, qual a resposta?
Minha pergunta seria: O que diria sobre a pixação nos dias de hoje? Eu respondo que hoje em dia a pixação se modernizou muito, chegaram nas redes sociais, isso foi bom e ao mesmo tempo ruim para o movimento.

Vou explicar o lado bom. Serviu para aproximar a velha guarda com a nova geração, para divulgarmos nossa história, para promovermos eventos, etc… O lado ruim são as tretas, as fofocas e os que nunca saíram do bairro e usam as redes sociais sem sofrer nas ruas para se promover. Eu no começo fui contra, mas mudei depois de conseguir reencontrar velhos amigos e poder compartilhar um pouco da minha história.

10 – Espaço livre pra falar o que quiser.
Quero agradecer a vocês pela oportunidade de poder contar um pouco sobre minha história, também quero agradecer a todos os pixadores do A.B.C, da Zona Norte, Zona Sul , Zona Leste e da Zona Oeste pelas recepções que tive em varias quebradas. Quero agradecer meu eterno parceiro WOLFS (DT) , minha esposa que me aguenta diariamente, minhas histórias e todos meu familiares por tolerarem a pixação na nossas vidas.

Vou deixar um abraço especial para a rapaziada da minha grife OS MUITO LOUCOS, da qual sou a unica de fora da Zona Leste, região original desde a criação da turma. Falo isso com muito orgulho.

Para finalizar quero deixar uma mensagem para o movimento de hoje: Respeite para ser respeitado, porque existem muitos apagando os pixos antigos para o graffiti. Muitos estão fazendo no meio das letras, sem respeitar o próximo e com isso posso afirmar que aos poucos estão acabando com o movimento, sem perceber!