Entrevista – RCD

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RCD nem sempre foi conhecido no meio da pixação. Em entrevista ao BC, o escritor conta como saiu do anonimato, de um menino que teve sua própria folhinha rasgada em um point na frente de todos para ser considerado um dos mais atuantes pixadores da história de São Paulo. Fuga de uma chaminé em brasa por uma corda “teresa”, a opinião sobre a cena atual e seu interesse por hardware e ufologia são tema da conversa com o pixador que carrega seu próprio nome no rolê: Ricardo.

01 – Como e quando começou a se interessar por pixação?
Assim como a maioria da época (e o interesse surgiu no fim dos anos 80), eu saía de casa para andar pela cidade de ônibus e me deparava com aquelas marcas que se repetiam ao longo do caminho, aquilo me deixava intrigado para saber qual seria o objetivo, revolta, protesto, fama, afirmação social ou vandalismo. Aquele submundo até então desconhecido me chamou a atenção pelas várias camadas existentes na época, desde o vândalo de banheiro de escola até o indivíduo que se aventurava pelas ruas e avenidas com suas latas de tinta. Cada etapa é uma experiência única.

02 – O que sente falta daquela época? E o que não sente?
O que sinto falta é que antes existia um espécie de encanto, que era justamente você não saber quem eram os indivíduos que mais se destacavam. Só se via os rabiscos se repetindo cada vez mais e não existia essa exposição de câmeras e microfones, ou seja, o verdadeiro pixador mesmo era aquele que pixava, que fazia a terra tremer. Só lembrando os incautos que dizem que “quem manda não é quem faz mais alto e sim quem faz mais”: a maior barreira a ser quebrada é a distância e não a altura. Na altura já temos o Alain Robert Official, o homem aranha francês. Esse camarada com uma lata de spray na mão colocaria qualquer um do planeta no bolso. A bravura tem que ser no estilo “bomba atômica”que quando explode sai devastando tudo em todas as direções, simultaneamente. O motivo do comentário acima não é causar contenda e sim fazer com que as novas gerações abram suas mentes sobre os riscos em seguir uma carreira curta de pixador “kamikaze”. Lá no “umbral” ninguém ficará te pedindo folhinha não. Valorize a vida. Como diz o Charlie Brown Jr: “Resgate suas forças e se sinta bem, rompendo a sombra da própria loucura, cuide de quem corre do seu lado e quem te quer bem, essa é a coisa mais pura…” Não sinto falta dos tempos difíceis, no começo dos anos 90 você era quase que obrigado a começar muito cedo porque a sua carreira se encerraria quando completasse 18, um pensamento conservador de que quem virou adulto não pode mais pixar. Ao contrário de hoje em dia a grana era muito curta, motivo pelo qual muitos optavam pelas latas de tinta. Também não sinto falta da antiga FEBEM, era muita gente “de menor”. Se a casa caísse e não tivesse um maior responsável, você pegaria o bonde na certa.

03 – Como é pixar seu próprio nome? Já teve algum tipo de problema por isso?
Antigamente o movimento era uma carreira, uma profissão mesmo. Sempre tive essa visão. Tudo tinha que ser muito bem planejado na teoria antes de sair na rua para a aplicação da prática. A ideia era bolar um nome (inexistente até o momento) curto e que fosse rápido e fácil de se fazer. O letreiro era totalmente adaptado para a modalidade na qual você se identificasse. No meu caso específico eram os picos, uma modalidade que pouco importava como você subiu, o importante era fazer um trampo bem feito, letreiro quadrado e totalmente horizontal nas partes superiores. Só lembrando que os primeiros alvos saíram uma “merda” (risos). Só a prática e persistência leva a perfeição. Inventar o nome em formato de sigla era justamente para fugir de problemas, ser um verdadeiro anônimo onde o objetivo principal é o reconhecimento através do rabisco (uma ideologia underground) e não mostrar a sua cara para as câmeras fazendo meia dúzia de pixos apenas no centro da cidade (uma ideologia mainstream).

 

RCD, final da década de 90.

 

04 – Importantes pixadores tem “caretas” / desenhos dentro de suas letras, isso com o tempo se tornou uma marca da pixação paulistana. Suas letras sempre tiveram essas caretas? Como isso começou?
No início o meu letreiro era feito sem nenhuma careta, com o tempo o intuito das caretinhas era expressar o sentimento do momento:

Tá fazendo um pico, acendeu a luz da janela, escutou barulho de tiro, levou uma vassourada na cara, afundou no telhado, já mete a exclamação(!) rapidamente porque o clima tá tenso. Se esta tudo tranquilo já joga a careta sorridente. Se tá passando um pano de cantoneira na esquina já joga a careta olhando de lado no estilo observador. O limite é a sua criatividade de acordo com a “vibe” do rolê.

05 – Referente a pergunta anterior: Você também desenha ou seu interesse na maioria das vezes é somente letras?
Se eu tivesse talento com desenhos acho que teria escolhido uma carreira menos perigosa. Porém nunca me arrependi de ter seguido o caminho do vandalismo, querendo ou não todo letreiro segue uma tendência de cada época. A década de 90 foi a época de ouro dos picos e dos prédios, período em que surgiram muitos letreiros com traços totalmente retos, específicos para essas modalidades. Hoje em dia já não vejo essa preocupação com letreiros. O letreiro simples é um legado dos anos 80.  A galera de hoje em dia está muito focada na guerra de egos, onde o mais importante é o quanto o indivíduo coloca a sua própria vida em risco e fugindo do objetivo principal que é o produto final lá no alto com uma estética impecável e que possa atingir visualmente todas as camadas da sociedade.

06 – Logo que entrou na prefeitura de São Paulo, o prefeito João Dória implementou sua campanha anti-pixação. O que pensa em relação as multas impostas e a esse tipo de política de combate ao vandalismo?
Os políticos como sempre adotam medidas que tratam apenas os sintomas e escondem as verdadeiras causas do colapso social em que vivemos. Enquanto na Suécia fecha presídios  aqui nesse país escolas são fechadas. Ou seja um povo sem educação se torna muito mais manipulado e revoltado e uma das válvulas de escape é justamente o movimento pixação, onde o jovem encontra o acolhimento necessário para o desenvolvimento das suas habilidades. Nesse submundo ele se sente vivo, útil, com a vontade de sempre querer ir mais além, se tornando um indivíduo de destaque. Isso é o que move a cena, um ambiente onde existe uma competição sadia e ao mesmo tempo entretenimento, um verdadeiro esporte da periferia onde as pessoas escolhem se ficam nas arquibancadas ou se partem para a pista. As multas são os obstáculos colocados pelo sistema que aumentam a periculosidade da pista e eliminam os participantes ”modinhas” que querem ganhar a corrida acionando o módulo “cavalo doido”.

Leis existem para serem burladas, apareceu uma curva fechada é pneu de drift, estilo “need for speed carbon”. Uma boa estratégia fará toda a diferença ao longo dos anos. Não pense em acionar o módulo “pixador cometa” que surge nos céus, brilha durante alguns minutos e desaparece sem deixar rastro. Para que se faça história no movimento é necessária uma base sólida de conhecimento sobre a trajetória de quem já passou pela pista.

07 – O que te atrai além da pixação. Quais são suas referências de arte, música etc.?
Tenho atração pelos mistérios da humanidade, misticismo, ufologia, ciências herméticas, paranormalidade, matemática, segurança digital, desenvolvimento de hardware/software open source, física clássica e moderna. A perfeição da natureza é toda baseada em números. Alguém teve que fazer esses cálculos para que tudo crescesse em plena harmonia, ao contrário do pensamento “ateu” de que tudo foi feito por obra do acaso. Leio muito sobre arte das cavernas, sobre a capacidade de figuras pensantes contarem suas histórias usando os “rupestres” como forma de comunicação escrita. Um tremendo raciocínio futurista. Como é que eles sabiam que fazendo a comunicação dessa maneira, aquilo seria visto por outras civilizações 40.000 anos depois? Uma tremenda sacada que vale para o movimento pixação. Não viva como lenda e sim como fato concreto. Os pixos antigos fascinam a nova geração e isso será o seu legado para as futuras gerações. Não pense em acionar o módulo “muralha branca” que se apagará em pouco tempo. Poucos sabem a origem do fascínio pelas pastilhas, quartzos e mármores no nosso movimento. Nesses espaços se encontram o que sobrou da história da nossa arte, um fato concreto que está ali para qualquer um ver, uma escrita que transcendeu o tempo.

Sou ouvinte assíduo da boa e velha música eletrônica e todas as suas vertentes. Encaro o RAP como uma verdadeira escola, onde as letras passam informações explícitas e resgatam muita gente dos maus caminhos como é o caso do “Ciclo dos Entorpecentes” do PMC – Poetas de Rua e do “Negro Limitado” do Racionais, onde as mensagens transmitidas se encaixam para todos e não só para os negros.

 

Personagem na letra “R”: um clássico das ruas de São Paulo.

 

08 – Já passou pela sua cabeça nunca mais pixar?
Eu nunca tive esse pensamento. É claro que com o passar dos anos temos que definir nossas prioridades mas a bagagem de conhecimento nunca se apaga. Dentro do movimento você se descobre, ali você externa o potencial que tem. Por isso poucos se destacam. São alguns indivíduos que conseguem canalizar essa energia que se acumula. O excesso dela te leva facilmente ao caminho do crime e/ou abuso de entorpecentes. Sempre procurei canalizar essa energia para o caminho do bem, o estudo, o trabalho, a caridade, esses caminhos farão com que essa energia ganhe estabilidade. É como duas placas de urânio enriquecido U-235. Se elas se chocarem é a detonação da bomba nuclear e o seu fim. Se elas forem usadas dentro de uma usina isso se transforma em luz elétrica para toda a população. Pelas palavras de um médium saber canalizar é fundamental.

09 – Assim como a maioria dos pixadores, você deve colecionar inúmeras histórias, tanto boas como ruins. Conte para a gente uma de cada, que tenha te marcado em todos esses anos.
A história a seguir considero boa e divertida: fomos fazer um pico show e o esquema de subir era uma escalada de chaminé, um tubo metálico preso na parede que dava acesso ao telhado. Ao começar a façanha as horas foram se passando. As 5:30 da manhã começamos a sentir um cheiro de salgado frito e mal sabíamos que no térreo funcionava uma lanchonete e os funcionários já teriam iniciado sua “ripa” matinal. Na hora de descer veio a surpresa. A chaminé estava fervendo, a chapa tinha esquentado literalmente. Começamos a matutar e decidimos fazer uma corda “teresa” usando duas blusas, duas camisas e duas calças e mesmo assim ainda tinha que se soltar. Nessa o telhado afundou, o BRC ficou todo ralado e troquei a “teresa” de lugar sabendo que afundaria também mas as telhas amorteceriam a queda. Amarrei num canto pouco visível já sabendo que na outra noite voltaríamos para busca a “corda” afinal era feita das nossas roupas. Nessa brincadeira fomos embora só de cueca e ralados. No outro dia por sorte, as roupas estavam lá, resgatamos as roupas e viemos embora de boa. Uma história ruim: eu entrei nessa vida muito cedo e devido à pouca idade era desacreditado por todos. No fim de 1992 fui num determinado point e sentei num banco no meio da galera. De repente eis que surge uma folha e um dos indivíduos dobrou essa folha na quantidade de pessoas que assinariam. Sobrou a última parte da folha e eu fui lá e fiz. O indivíduo, dono da folha, olhou todos os pixos, dobrou a última parte da folha destacando-a das demais e tirou aquele filete onde tinha o meu pixo. Amassou, jogou no chão e saiu andando. Os demais presentes ficaram quietos e foram se levantando aos poucos  afinal de contas eu era apenas um ilustre desconhecido. Fiquei ali sentado tirando lição daquela situação e decidi: agora é guerra, quem não conhece, conhecerá.

Acionei o módulo U-235 e comecei pela zona norte, comprei um mapa da cidade, colei na parede do meu quarto e fiz todas as avenidas de rolo sozinho, logo em seguida passei a devastar o resto da cidade.

Moral da história, quando os problemas surgem, os fracos encaram tudo como dificuldade. Eu não. Encarei aquela situação como oportunidade de canalizar toda a minha ira e mostrar qual o meu propósito na cena. Hoje em dia lembro de tudo com muita satisfação. Os percalços da vida fazem com que nos tornemos fortes perante as dificuldades. Insista, persista e nunca desista dos seus objetivos. Faça a diferença  sendo original, pioneiro, resiliente e inovador acima de tudo.

10 – Espaço livre para falar o que quiser.
Em primeiro lugar agradeço a DEUS por ter sobrevivido todos esses anos nessa guerra urbana. Beside Colors pelo espaço concedido. Sou muito grato pelos meus irmãos de rua, são eles: TBOBY, DARK, JÚNIOR, AGSTER (Adilson), PPB, CLP, CELO, XAD, MCL, PONA, BRC, MRU, FIU, FROG, RSC, SBM, PUGA, KEITI, LECÃO, INSETO, STOP, PEIDO, DNO, RBO, CRO, 8° BATALHÃO (Killer, Pinguim, Véia e Manu), MUTANT’S (Sartur), MDB(Rocha e Gão), PILARES (Exu), AÇÃO (Du), NEGO, FUD (Doideira), PLK (Rincon), WRS(Du e Coquinho), *LEGAL*, FILHO, PROFECIA (Ninja, MHS e Guto), TRUKS (Fauzer) POSSUÍDOS(Léo), RIC, GORDO, ILEGAIS (todos),CRIPTA (Djan) entre tantos outros.

“Seja você a mudança que quer ver no mundo.”
(Mahatma Gandhi).