Entrevista – RAROS (Nando)

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Nando, um dos precursores da grife AR e escritor do pixo “Raros” conta a história da foto guardada a quase 10 anos que deu origem a uma série de prints e camisetas inéditas. Sua relação com LIN2, como planejaram o fato e um pouco da sua história dentro da pixação também são assuntos nessa entrevista ao B-Side.

Toda e qualquer informação contida nessa entrevista foi cedida pelo próprio Nando e apenas transcrita pelo Beside Colors. Mais informações sobre os produtos a venda: www.instagram.com/raros.nando ou  www.anurbanshop.com.br/raros

1 – Primeiro a clássica: Porque RAROS? Conte pra gente também um pouco da história do rolê, quando surgiu, quem fundou, participou…

“Raros” já era um nome legal da minha quebrada, quando eu ainda não fazia parte do movimento. Raridade. Já existia um “Raros” na Cidade Tiradentes (Zona Leste da cidade de São Paulo) e o “Nenê” começou a fazer “Raros” na Vila Formosa (também Zona Leste) em 1992. Quando o “Hiper” entrou no pixo ele ficou sabendo que existia esse “Raros” na CT (abreviação para Cidade Tiradentes) e foi lá conversar com o “Dudu” que era o mano da CT. Eles trocaram ideia e assim unificaram o “Raros”. Isso foi entre os anos de 93 e 94. Eu mesmo fui entrar somente em 1997 através do “Hiper” e o próprio me contou sobre essa fita.

Tiveram vários integrantes no decorrer dos rolês: Dudu, Nene, Hiper, Ale, Rico, Leca, Casca, Jota, Dedo, Biel, Tati, Maninho, Galo, Nando…Raríssimos!

2 – Agora sobre a foto em questão. Como foi esse dia? Conte pra gente como conseguiram esse feito e o mais importante, como saíram ilesos? 

Cena rápida e certa. Lance rápido! Fazer o pixo, tirar foto e fugir. Já tínhamos em mente fazer uma viatura. No corre do dia a dia flagrei esse local de dentro do ônibus e vi grandes possibilidades fazer o rolê. Desci do “bus” e já ganhei o esquema.

No mesmo dia quando cheguei em casa liguei pro Marcel (LIN2) dizendo que já tinha ganhando o esquema pra fazer uma viatura. Fiz o corre de um filme fotográfico Kodak, peguei emprestado uma máquina fotográfica analógica e poucos dias depois estávamos prontos para a ação. Foi feita durante a semana. Entre 20:30h e 21h analisamos e decidimos agir assim que escurecesse porque se fizéssemos de madrugada naquela região seria muito suspeito (risos). Assim que chegamos no local foi cena rápida, pulamos o muro e escolhemos uma das viaturas do local (tinham umas seis pelo que eu me lembro). Ficamos agachados um tempo para ver se ninguém fazia uma ronda por ali e assim que “nada acontecia”, por trás dos carros algo acontecia! Disse pro Marcel fazer primeiro porque queria colocar o Raros em cima do símbolo da polícia. Depois que terminamos fomos atrás do outro carro que estava atrás da gente e dali consegui focar pra tirar as fotos. Fiz uns três ou quatro cliques pra não correr o risco de “queimar” a foto. Se queimasse uma teriam as outras. Em seguida pulamos o muro. O local ajudava muito para sair ileso, era bem escuro e  já saia na Marginal Pinheiros. Muro baixo, fácil de pular. O local era perfeito para uma fuga (risos).

3 – Acha que esse rolê poderia ser feito nos dias de hoje? Como seria se fosse em 2021? Como imagina a repercussão com as redes sociais e tudo?

Poderia. Fazer é simples, difícil hoje em dia seria sair ileso. Se você divulgar já se entrega. Quem fizer algo assim tem que estar completamente fora das redes sociais, internet, completamente underground e ainda assim o risco de ser pego é gigante. Teria que estudar bem onde divulgar e já estar preparado para muita coisa, tanto crítica, quanto adoração.

4 – Durante quantos anos “esconderam” essa foto? Tiveram receio de divulgá-la? O que acha que poderia ter acontecido se ela tivesse vindo a público?

Na real não escondemos. Ela ficou guardada porque não foi divulgada, mas a intenção era totalmente essa. A foto ficou guardada por uns nove ou dez anos. Quando fizemos a ação foi para sair na revista Fiz (primeira publicação nacional impressa sobre graffiti e pixação). Já tínhamos saído nela com outra cena legal, uma “cabada” monstra na Radial, de ponta cabeça. Mas sabe como é né? Ibope. Ibope quanto mais se tem, mais se quer (risos).

Queríamos fazer algo difícil e desafiador como uma viatura! Se saíssemos na revista, mais ibope e conceito teríamos. Foi feita para ser divulgada na Fiz. Não sendo possível até pensei em vender para algum jornal, acredito que até dava pra ser divulgada, porém não fui muito atrás disso pois fizemos especificamente para sair na revista que era voltada para o público dessa cultura. Então ela ficou guardada durante um bom tempo. Se ela tivesse vindo a público teríamos ganhado bastante ibope na época e o objetivo teria sido alcançado, mas também poderíamos ter ganhado um belo processo ou coisa bem pior que isso. Foi triste ter que guardar essa foto na época, “esconder” o feito.

5 – Curiosidade: Tem algo escrito atrás da foto original?

6 – LIN2 foi figura marcante da pixação de São Paulo e tão novo quanto começou a pixar também nos deixou. Como foi conviver com ele? Conte um pouco sobre esse nome tão importante do movimento.

Foi “da hora”. Éramos grandes amigos, fazíamos bastante coisas fora do rolê de pixo. Menino bom, de coração bom, parecia uma criança por ser pequeno mas já era “véinho” (risos).

Ligeiro por rolê e no rolê. Gostou muito do nosso movimento, da nossa cultura. Se dedicou ao máximo e trouxe um novo conceito para dentro da cena. Ele “cabritava” (fazia/copiava as letras de outros pixadores por diversão), fazia vários pixos fora o seu. Na real todos nós sempre ficávamos fazendo folhinhas, fazendo nossos pixos e dos nossos amigos para treinar.

Por ser pequeno ele começou a fazer o pixo de quem estava com ele no rolê, por isso o fato de sempre estar treinando em casa. Com isso ele criou o “foscar”. Pelo menos pra mim ele foi o primeiro a “foscar”, pixar “foscando” pra cima, sabe? Foi ligeiro! Como ele era menor e não conseguia levantar ninguém e mesmo assim queria ter mais alcance (que seu pixo ficasse mais ao alto), ele começou a jogar pra cima o spray, forçando e criando assim o “foscar”.

Muitos seguiram essa linha de foscar pra cima. Nós que fazíamos com ele, começamos a jogar o spray pra cima também pra ficar mais alto o pixo. Não lembro, não sei se outro ou outra já fazia assim na época, assim sendo, vou deixar esse legado na responsa dele (risos).

São tantas coisas pra dizer e contar sobre o QN, Marcel que da até vontade de chorar de saudades, então não contarei mais nada, quase nada.

7 – Você foi um dos idealizadores e criadores da AR (Adolescência Rebelde), uma importante e clássica grife da pixação de São Paulo. Conte pra gente como surgiu a idéia da AR.

Já éramos amigos, já fazíamos rolê todos juntos e na época queríamos fazer uma união. Chegamos a fazer uma outra antes, até conversei com um mano sobre voltar a fazer essa união que estava parada, porém por divergências e coisas que aconteceram na época deixamos a idéia de lado.

Ficou uma lacuna e a vontade de fazer uma nova união. Vou enfatizar aqui que AR (Adolescência Rebelde) era uma união e não grife, vindo a se tornar grife bem depois. Era uma união de amigos, que andavam juntos, não uma “panela” ou “panelinha” como muitos diziam e dizem até hoje. Tínhamos essa vontade de fazer uma nova união, sempre conversávamos sobre isso nos rolês que fazíamos. Em 1998, em um desses rolês, o “Ma” (PDA) veio com a idéia, explicou o nome, o porquê do nome. Éramos adolescentes, o conceito, o símbolo. Todos gostaram!

8 – Conte um pouco sobre o lançamento da gravura e também da camiseta. Como foi todo o processo?

Antes tarde do que nunca (risos).

Quero finalizar esse objetivo que era divulgá-la. Não foi possível na época e por mais que a foto já estivesse nas redes/internet escaneada pelo próprio Marcel, precisaria eterniza-lá de alguma forma, perpetuando-a. Hoje temos vários recursos e também vários conflitos internos dentro da gente, como vender algo assim, mas temos que fazer antes de ir dessa para uma melhor.

Quando fui escanear a foto, em meio as conversas e tal, escaneamos e imprimimos duas. Daí veio a idéia de fazer uma série de prints, com qualidade e únicas, raras, raríssimas, raridade!

Este lançamento tá sendo como um filho para mim. Estava com a idéia pronta antes da pandemia. Já tava tudo certo para o lançamento, mas vender algo assim era inapropriado, tínhamos outras coisas mais importantes no momento. Hoje ainda estamos em um momento também complicado, só que temos que viver, sobreviver. Somos sobreviventes. Também queria fazer umas camisetas dessa foto icônica e resolvemos desenrolar com o pessoal da à Urban Shop de juntar tudo e fazer uma collab: prints e camisetas. A à abraçou a idéia e fomos desenvolvendo, amadurecendo, vendo uma data legal pra soltar!

Porém como disse, é como um filho que está nascendo e tudo tem seu tempo. 2021 será o ano de lançamento, 24 anos depois da cena. Prints com papel , folhas Hahnemüle e camisetas Shaka Wear!

9 – Espaço livre pra falar o que quiser.

Quero aqui deixar meus agradecimentos e gratidões a todos os Raros, todos do movimento e da cultura. Todos os envolvidos nesse projeto/trabalho e que de alguma forma ajudaram e influenciaram nesse trampo, agradecer vocês do B-Side e que 2021 seja pra cima e pra frente, que consigamos sobreviver e viver essa pandemia que estamos passando e que todos se protejam e protejam os seus. E também que sempre haja paz, humildade e harmonia dentro da nossa cultura, do nosso movimento.