ENTREVISTA – KEL

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Cria das ruas do Catete (ou simplesmente KTT), Kel está nas ruas desde 2002. Pertencentes as crews 5 Estrelas e VR, a escritora carioca conta como “botar seu nome” em diversos lugares do Rio a levaram do mainstream a fuga debaixo de balas.

1- Você pode ser considerada uma das minas que mais representou no xarpi carioca. Como é ser uma mulher na cena?

O xarpi sempre foi predominantemente masculino, mas não me deixei abalar por isso, pelo contrário, sempre vi como um desafio de quebrar paradigmas e mostrar que nós mulheres podemos chegar aonde quisermos, no mesmo nível deles ou até mais. Sim, já sofri muito com o machismo nesse meio mas fui abraçada por muito mais gente do que por aqueles que queriam me botar pra baixo. Tem e já existiram várias minas com disposição, mas acho que muitas ainda não se sentem tão a vontade no xarpi porque são poucas que permanecem, que vão nas reús, que não pixam só quando estão de relacionamento com os caras mas que fazem amizades também e vão além. Hoje eu vejo que tá acontecendo uma cena muito foda das minas do pixo em São Paulo e isso pode ser inspirador.

2- Como foi ser chamada a ir ao Projac ensinar um pouco do xarpi para alguns “globais” e ajudar a treinar uma personagem que será “pixadora” em uma novela? Achou por algum momento que seria possível esse reconhecimento por parte da grande mídia quando começou a pixar?

Lá no início eu nunca imaginei algo desse tipo, é muito louco. Eu só pixava pra rua, pra minha tribo e a mídia foi aparecendo aos poucos, como consequência. Todo pixador busca um reconhecimento e a sociedade por mais que odeie a gente não tem como tapar os olhos. A pixação está por todo lado, a gente que compõe a paisagem das cidades, modificamos e crescemos junto com elas. Esse lance da globo mostra o quanto os muros têm voz, e agora querem nos ouvir. Fiquei bem feliz que eles se preocuparam em pesquisar e buscar a realidade da parada, maior responsa.

 

Kel em Lisboa: Intercâmbio entre Xarpi e o Graffiti.

 

Depois que o Caixa morreu, senti uma necessidade de transformar todo o meu sofrimento, junto com a minha popularidade naquela época, em algo que me desse frutos, que me fizesse continuar. Já tinha uma vontade de fazer moda e a marca tinha que ser essa, nem conseguia imaginar outro nome, foi natural. É meio louco comercializar a pixação, mas se não fosse nós, quem seria? A arte urbana já tava sendo estuprada há muito tempo por gente que nem fazia parte da cena.

 

3- Quais são suas principais influências dentro do movimento?

Eu comecei vendo a galera da minha área que assinava JR (Juventude Rebelde), depois conheci os moleques da VR: Caixa, Jax, Ellus e Buda, que eram do Centro e quebravam tudo. Mas também cresci vendo o Sel, Kadu e outros grandes nomes dos anos 90 e 2000. Hoje minha visão também tá além do xarpi, tenho admirado cada vez mais a cena vandal do graffiti.

4- Você foi uma das pioneiras também a transportar o Xarpi a outros níveis, transformar a própria palavra Xarpi numa marca, uma festa. Como surgiu essa idéia?

O xarpi sempre foi mais que um movimento, é uma vida paralela pra muita gente. E eu respirava aquilo, foi tudo muito intenso na minha vida e escancarado pra todo mundo. Depois que o Caixa morreu, senti uma necessidade de transformar todo o meu sofrimento, junto com a minha popularidade naquela época, em algo que me desse frutos, que me fizesse continuar. Já tinha uma vontade de fazer moda e a marca tinha que ser essa, nem conseguia imaginar outro nome, foi natural. É meio louco comercializar a pixação, mas se não fosse nós, quem seria? A arte urbana já tava sendo estuprada há muito tempo por gente que nem fazia parte da cena. Comecei fazendo camisas em 2008 e em 2010 tive outra visão, a cena do Rap. Eu era fã de rap nacional, frequentava todos os eventos da época e no meu aniversário consegui juntar meus amigos do xarpi com meus amigos do rap e fazer uma festa underground de verdade. A partir dali fiquei com vontade de fazer evento, porque não tinha sempre e eu também queria ver shows de Mc’s de SP que era só indo lá pra ver. Precisava de um nome pra festa e também só veio Xarpi na minha cabeça. Era o público raiz.

5- Atualmente está em Portugal e foi onde produziu a primeira festa “Xarpi” em Lisboa. O que te levou a viajar para a Europa? O que está achando dessa “aventura”?

Surgiu uma vontade grande de sair do Brasil e conhecer outros países. Nem imaginava a Europa primeiro mas algumas amigas que estão em Portugal tornaram tudo mais fácil. Já tinha trocado umas ideias a respeito de trazer a festa com a Muleca e o Papo Reto  que eu já conhecia lá do Rio pelo Comando Selva. A minha amiga e sócia Duda foi quem botou mais pilha e fez a conexão com o Papo. A primeira festa aqui superou as nossas expectativas e agora só esse Corona sair fora pra gente voltar a traçar mais planos.’

 

Frases junto ao nome: um clássico do Xarpi.

6- Quais são seus planos e ambições dentro do graffiti? Alguma missão especifica ou países em vista?

To curtindo expandir os horizontes e fazer conexões com os grafiteiros. Não tive muito tempo pra rabiscar Portugal ainda, mas até que já dei uns bons rolés. Tenho muito que conhecer a Europa, principalmente Barcelona e Berlim, dizem que a cena é forte lá.

7- Nos conte um rolê que ficou na sua memória e aquele que foi sua pior experiência.

Role que dei aqui em Lisboa com o Leo Insanos (SP) e o Twoul (RJ). Nesse dia invadimos um prédio que deu ruim mas depois ganhamos um telhado. Meu primeiro rooftop na gringa vai ficar na memória.
Já as piores experiências foram as duas vezes que tive arma apontada na cara por policia no Rio, uma vez em Niterói e outra vez no centro. A sensação foi pior do que das vezes que atiraram pra cima da gente em Jacarepaguá e na Av. Brasil.

8 – Quando começou a “botar seus nomes? De que bairro do Rio você é original?
Primeiro nome na rua foi em 2002. Sou da Glória, cria do KTT.

9 – Você ja representou crews como VR e 5 Estrelas. Nos conte como foi a concepção das duas crews.

VR é uma das siglas mais fodas da geração 2000. Eu comecei a assinar em 2004 depois de 1 ano pixando à vera com o Caixa. Teve um dia que eu falei: “Ei tu não vai me botar na VR (Vício Rebelde) não?” (risos). Ele era machista às vezes mas todos os meninos da sigla aprovaram.

E a 5 Estrelas é a primeira “família” da pixação carioca. No jogo do xarpi, é tipo a seleção brasileira. Eu tava muito próxima dessa galera na época e o Vuca principalmente botava maior pilha pra eu assinar 5. Isso deu maior B.O, um dos pioneiros da VR me fez um ultimato, pra eu escolher uma das duas (risos). Mas mostrei pra ele que sigla e família podem conviver juntas, o negócio é união e evolução.
Tenho muita honra em fazer parte dessas duas potências.

10- É algo corriqueiro os escritores do Rio de Janeiro escreverem sempre alguma frase política ou polêmica junto ao Xarpi. Para você qual a frase que mais te marcou em todos esses anos?

“Uma chama que nunca se apagará.” Essa frase do Seif é lendária tanto quanto ele. Eu não cheguei a conhecer ele, nem vi essa frase no muro, mas virou um grande marco da pixação, que passa de geração em geração e eu acho que esse é o real sentido dessa frase.

11- Espaço para falar o que quiser.

Que o fim do mundo acabe e foda-se o bozo!