Entrevista – Juneca

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Não sou muito preocupado em falar, mostrar. A historia esta aí, só pesquisar para saber que fomos importante para o movimento. Queira ou não vão ter que me respeitar.

Original do bairro do Brooklin, localizado na Zona Sul de São Paulo, Juneca foi personagem emblemático para quem viveu nos anos 80. Um dos precursores da pixação, o escritor ganhou notoriedade por feitos como o de pixar a cúpula do Congresso e ser perseguido por políticos como Jânio Quadros. Em entrevista ao BC, Juneca abre seu arquivo de fotos, reportagens e conta como foi parar em capa de revistas e também em páginas policiais.

1- Você é da chamada primeira geração de pixadores da cidade de São Paulo. O que mudou de lá para cá no movimento?

Me considero da primeira geração pois não tinham pixadores nesta época. Eu e o Pessoinha pixávamos “JUNECA PESSOINHA”. Bom na verdade o que tinha antes era apenas o “Cao Fila”,  aquele canil que 0 senhorzinho escrevia pela cidade com a carroça em algumas estradas. Mas não com a intensidade que a gente pixou a cidade de São Paulo e o Brasil.

Eu viajava para outros estados sempre munido de sprays e espalhamos “JUNECA PESSOINHA” pelo Brasil e pela cidade de São Paulo toda.

A diferença era que naquela época a cidade de São Paulo era toda limpa. Não tinhamos a necessidade de subir em prédios e competir pois não tinham outras pessoas. Éramos só nós.

Um ou outro pixava na rua de casa, entendeu? Mas não tinham pixadores que repetiam seu nome várias vezes em um bairro ou na cidade. Não havia competição. Era uma brincadeira, sem a pretenção de se tornar conhecido ou querer aparecer. A idéia era exatamente não saber quem nós éramos.

3- Você já teve parceiros como Bilão, Lelo Belo e Pessoinha. Você se espelhou em algum escritor para começar a pintar nas ruas? Qual foi seu melhor parceiro de rolê em todos esses anos?

Na verdade parceiro de pixação mesmo foi o Pessoinha. Foi o melhor parceiro e foi quem pixou comigo quase em toda a minha carreira dentro da pixação.

Só parei de pixar com ele mesmo quando ele foi servir o exército. Ele ficou um ano servindo e eu nesse tempo, que já era praticamente o fim da minha carreira como pixador, pixei com o Bilão.

O Bilão ficou até mais conhecido porque o Jânio Quadros na época citou ele no Diário Oficial mas quase todo o tempo foi com o Pessoinha. Esse foi o melhor parceiro. Ah, pixei muito sozinho também, de motoca e por outros estados a fora aí.

Esses foram os dois únicos com quem pixei junto mesmo. Os outros que falam que pixaram junto comigo não estão falando a verdade.

4- Cite alguns nomes para gente de escritores que pixaram muito na década de 80?

A galera que apareceu no decorrer de todos esses anos foi o Lelo Belo, PSP Osso, Intimação que eram uns caras que tinham bastante também. Além deles: SOS City Gang, Valtinho da 2 e Bigu CG que tinha uma moto CG.

Depois no final apareceu o Mi do Virginia, o Nero, 5º DP. Acho que esses eram os mais atuantes depois de nós. O Tchentcho pixou também mas já no final da minha “carreira”. O Tchentcho Vicente né? O primeiro Tchentcho. Depois apareceu o outro, que pixou prédios e tal. Era mais ou menos essa galera.

 

 

4- Inúmeras matérias, reportagens e holofotes durante todos esses anos. A pixação te deu muitas alegrias ou te deu mais dor de cabeça?

A pixação só me acrescentou como pessoa, como artista. Algumas pessoas até acham que eu sou contra a pixação mas é muito pelo contrário. Sou agradecido à pixação. Foi ela que me projetou, que me deu espaço na mídia e acesso à novas pessoas.

Tem pessoas que acham que eu deveria ser pixador até hoje. Eu nunca falei mal da pixação. Eu falo por mim, tomei outros caminhos na vida, apareceram outras possibilidades. Comecei a fazer graffiti, fui estudar artes plásticas, me tornei artista plástico e me destaquei de outra forma, com exposições pelo mundo a fora.

Eu preferi esse caminho para mostrar minha arte, para mandar meu recado.

 

5- Como pixaram a cúpula do Congresso? Conte pra gente como elaboraram o plano e executaram o feito.

Brasilia foi engraçado. Fui sozinho para lá, na época era estudante de uma escola na Chácara Santo Antônio e teve um encontro de todos os grêmios do Brasil em Brasilia.

Fiquei em um alojamento e levei algumas latas de spray. Tinha mais de 5 mil alunos na rampa conhecendo e tal. Eu aproveitei a oportunidade, levei a lata de spray e no meio de tanta gente escrevi JUNECA bem grandão.

Foi na cara de pau porque estava lotado. Só quando saiu todo da rampa que deu pra ver o que estava escrito. Mas na real só quem viu eu fazendo era só quem estava muito perto ou em volta de mim.

Quando todo mundo desceu, o pessoal pôde ver. Fez todo aquele sucesso entre os pixadores na época. Foi isso também que aguçou a ira do prefeito Jânio Quadros que quando ficou sabendo decretou minha prisão. Aquela história do Diário Oficial, mídia e tudo que o pessoal já sabe (risos).

 

Manchete do Diario Oficial: cabeça de Juneca e Bilão estavam a prêmio.

 

6 – Você foi perseguido por politicos como Jânio Quadros. Quando a notícia chegou até você pelos jornais como a sua família reagiu?

Meus pais, minha família, todos ficaram preocupados com essa história. Mas eu, como era adolescente, não ligava muito, levava na brincadeira. Era engraçado porque eu comecei a dar algumas entrevistas de televisão e quando saia do estúdio estava a Guarda Municipal me esperando.

Chegando em casa tinha uma Guarda Especial me esperando, tirando foto de mim entrando, saindo de casa. Ai fiquei uns 60 dias pintando na Bahia, para esfriar um pouco o caso.

Depois fui chamado pelo vice prefeito lá no gabinete para conversar, dizendo que a gestão ia mudar, para eu ficar tranquilo e que ia voltar a vida normal. Mas foi só rumores, foi tranquilo e até me ajudou porque sai em muitas revistas e televisão na época. Acabei ficando conhecido e abriram-se muitas portas para  desenvolver o meu trabalho como grafiteiro.Há males que vem pra bem (risos).

7- Como surgiu o convite de ir ao SBT? Como foi se encontrar com o Silvio Santos?

Como eu fui o pixador mais conhecido na época e tal, fiquei para a mídia como um comentarista de tudo que acontecia referente a qualquer coisa de pixacão.

Por exemplo, se pixavam o Teatro Municipal, o Cristo ou outros monumentos eu era convidado para comentar. Eu virei um Percival dos comentários nessa área (risos).

Ai o SBT me chamou. Não só para ir ao programa do Silvio Santos mas também no Gugu, Serginho Groisman e em alguns programas de jornalismo.Eles me convidaram para se apresentar lá, mostrar o trabalho que estava fazendo na época e pintar um painel.

Lógico que todo o trabalho que falo sobre artes plásticas, graffiti, as pessoas querem saber também da pixação, está sempre aliada.

Fui falar de pixacão e o Silvio Santos, por conta dele mesmo, da curiosidade dele, estendeu a entrevista. Eu fui pra lá pra fazer um graffiti e acabei falando por 25 minutos com ele. Foi um marco e acabou me projetando ainda mais.

 

 

8 – Chegou a rodar muitas vezes. Como funcionava o enquadro e as DP’s na década de 80?

Era ditadura. Tinha muita Rota na rua, muita. O índice de criminalidade não era tanto e os policiais não imaginavam os pixadores. Quem era pixador eram nós. Não imaginavam que dois caras de moto estariam pixando.

Uma vez eu e o Pessoinha tomamos um enquadro da Rota. “Mão na cabeça” e tal. Quando colocamos a mão na cabeça caiu um monte de spray no chão. Os policiais perguntaram o que era. Dissemos na maior cara de pau, menores de idade ainda, que eram sprays para pintarmos a moto. Olharam a documentação e a historia colou.

Era tranquilo na maioria das vezes. Só as vezes que saiam dando tiro, achando que estávamos invadindo a casa. Várias vezes que estávamos pixando muros os caras abriram a janela e começaram a atirar pra cima, pros lados.

Naquela época se falássemos que éramos o Juneca e o Pessoinha ninguém ia acreditar. Uma vez pegamos um táxi e o taxista comentou “Pô todo lugar que eu vou esta escrito isso ai”. Se falássemos que éramos nós ele com certeza não iria acreditar. Até hoje tem gente que ainda não acredita (risos).

 

Uma vez eu e o Pessoinha tomamos um enquadro da Rota. “Mão na cabeça” e tal. Quando colocamos a mão na cabeça caiu um monte de spray no chão. Os policiais perguntaram o que era. Dissemos na maior cara de pau, menores de idade ainda, que eram sprays para pintarmos a moto. Olharam a documentação e a historia colou.

 

9- Conte pra gente alguma história curiosa da sua trajetória como pixador.

Eu comecei a pixar sem pretensão nenhuma de ser mais conhecido, melhor, maior que alguém. Foi algo totalmente despretensioso, uma brincadeira. Nem tinha ninguém para competir.

Fui trilhando meu caminho, comecei a fazer graffiti, fiz artes plásticas. Queria fazer jornalismo e a pixação me levou para as artes, me deu oportunidade de viajar, conhecer o mundo.

Não estou aqui para falar que a pixação é feia e o graffiti bonitinho. As duas formas de arte estão no mundo todo. Ela existe e sempre vai existir.

Mas minha história está marcada e não tem como apagar. Alguém pode até falar que vai pixar mais que eu mas fiz isso a muito tempo atrás. Fui o primeiro em quantidade, lugar, estados. É legal porque eu faço parte da história.

Hoje acho engraçado porque tem cara que fala que pixou na década de 80 e nasceu na década de 90. Não sou muito preocupado em falar, mostrar. A historia esta aí, só pesquisar para saber que fomos importante para o movimento. Queira ou não vão ter que me respeitar.

 

10 – Que recado daria a nova geração de escritores?

Acho que a pixação poderia ser mais direcionada a reivindicações também entendeu? A pixação é uma mídia muito forte, atinge todo mundo: o pobre, o rico, o magro, o gordo o branco, o preto. Acho que ela sendo direcionada, com uma mensagem, da resultado também.

É difícil dar conselhos. Se conselho fosse bom não se dava, se vendia (risos). Mas é isso ai, tem que aproveitar essa mídia gratuita para passar o seu recado.

11- Espaço livre para falar o que quiser.

Queria dizer que hoje sou um artista plástico fruto da pixação. Não quero ser exemplo pra ninguém mas depois da pixação fui para o graffiti e depois do graffiti fui para as artes plásticas. Hoje ministro cursos, oficinas, faço cenários, trabalho em outro segmento. Sempre respeitando a pixação e me orgulhando de um dia ja ter sido pixador. Gostando ou não eu faço parte da historia da pixação.

 

Fotos por: Arquivo pessoal Juneca, Loucos, Estadão.