ENTREVISTA – HOTCITY (SKID)

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Escritor dos anos 90, Skid ficou conhecido por espalhar seu nome nos quatro cantos da cidade. Original de São Paulo e hoje morando nos Estados Unidos, o escritor conta como sua vida mudou nesse tempo todo e como enxerga a pixação de ontem e de hoje.

 

Ficamos no ‘corró’ das 5 da manhã às 2 da tarde: Eu, Billy e o Isac (SS) dentro da cela. Já estava pixado de chave nas paredes Kop, Lin e outros pixos que não me lembro. Foi foda! Tive que deixar um Hotcity lá também né (risos).

1- Pergunta clássica. Porque Hot City? Conte um pouco da história da sua turma.

O nome Hotcity veio de uma tendência e inspiração dos anos 80. Foi criado e inspirado em nomes clássicos da época como Plebe City e Liberty City.  Nessa tendência de pixos terminados em ” City ” o Hotcity foi criado em 1989. No entanto eu viria entrar para a familia bem depois, em 1994.

2- Você é de que área de São Paulo?

Zona Sul, no Capão Redondo.

3-O que mudou do Capão que nasceu para o Capão de hoje?

Mudei para o Capão Redondo em 93. Cara, viver nos anos 90 no Capão foi uma das experiências mais difíceis da minha vida. Nessa época qualquer motivo era tiro na cara, tá ligado? Você tinha que andar na linha ou virava finado por nada. Eu morava na Cohab, no prédio laranja e o Mano Brown morava no prédio verde. Presenciei o filho do Pelé, o Edinho (na época goleiro do Santos) colar lá no campo e ficar trocando ideia com o Brown que santista doente (risos). A MTV na época batia cartão lá também. Foram tempos difíceis, exatamente como o Brown relata em suas musicas. Hoje pelo que sei é bem diferente, um pouco mais tranquilo.

Mudei para o Capão Redondo em 93. Cara, viver nos anos 90 no Capão foi uma das experiências mais difíceis da minha vida. Nessa época qualquer motivo era tiro na cara, tá ligado? Você tinha que andar na linha ou virava finado por nada.

4- Em que momento da vida você se viu real e verdadeiramente como um pixador? Tipo, agora não tem mais volta.

Foi em 1994 quando entrei para o Hotcity. Morava no Capão Redondo e senti que era a hora de arregaçar, ter ibope nas ruas de São Paulo. Nos anos anteriores quando fiz ‘TNT’ era mais por diversão mesmo, zoeira de moleque! Fiz apenas um ano esse pixo (1990) mas pra mim era satisfatório que caras como os Sónoys, Catch, Paninho e II Coves, que eram os caras que arregaçavam naquela época, lembravam do rolê.

 

Skid e VGN: uma das duplas mais atuantes dos anos 90.

 

Morava no Capão Redondo e senti que era a hora de arregaçar, ter ibope nas ruas de São Paulo.

4- Durante todos esses anos você conheceu e pixou com muita gente. Com que escritor teve uma sintonia maior na hora de pixar?

Mano, no baixo, pra carimbar as quebradas e espalhar, fiz bastante com o VGN. No alto fiz bastante com o CROSS. Teve outros manos durante a caminhada. Na verdade foram vários manos que tive o previlégio de riscar muros junto.

5- Depois de tantos anos dentro do movimento, você já presenciou e vivenciou muita coisa.O que mudou na pixação em todos esses anos?

Engraçado você fazer essa pergunta. Estava conversando com um mano que é dos anos 90 e ele me disse algo que eu compartilho da mesma opinião: “A pixação perdeu boa parte do encanto, da magia que existia nela”.  Na minha visão pode ser que a internet tenha estragado um pouco esse encanto que existia mesmo. Hoje é muito fácil você ter acesso a algum pixador que você admira por Instagram, Facebook, etc. Para você trombar os caras na época nem celular tinha. Você era obrigado a colar no ‘point’, não tinha outra opção. Os rolês eram combinados no ‘point’, principalmente quando você queria marcar rolê com caras de outras areas, da Norte, Leste, Oeste. Ou você teria que combinar com os próprios pixadores que moravam na sua quebrada. Não por coincidência foi assim que foram criadas muitas grifes de pixadores, pelas amizades bairristas.

6- Quais são suas referências da rua?

Minhas referencias são os caras que eram do meu bairro e que arregaçavam quando eu pixava ‘TNT’ em 1990: Zuerg, Veco, Warriors, ADS, Cabaço, II Coves, Jab, Valtinho da 2, Paninho, Marola, Sónoys, Catch, Os K elogios, Patetikos, Bando da Mão, Andarilhos, Sessel, Dluk, Edu e etc.

7- O que a pixação te proporcionou e o que ela te tirou?

Me proporcionou amigos, risadas, poder colar nas melhores festas (dos anos 90 na minha opinião), nos ‘points’, pegar folha, assinar folha, “curtir” a pixação. Não existe sentido você pixar e não curtir o movimento!

Perdi roupas, muitas roupas (risos). Diga se de passagem tomei processo também mas faz parte do jogo.

8- Assim como a maioria dos pixadores, você deve colecionar inúmeras histórias, tanto boas como ruins. Conte para a gente uma de cada, que tenha te marcado em todos esses anos.

Tem uma recente, não tão antiga, em 2014. Eu, Garra (Pelé), UML (Lnd) e o Siper estávamos fazendo uns pixos perto da Avenida do Cursino. Do nada apareceu uns moleques que estavam pixando. Eles eram da quebrada e estavam vendo nosso rolê, aparecendo os pixos em tempo real. Quando encontrou com o ‘Lnd’ um dos moleques perguntou: “Quem é o Hotcity?”. Isso já tinha acontecido algumas vezes e pra mim é o reconhecimento de anos que eu me dediquei ao movimento, perdendo noites de sono, gastando dinheiro com spray, perdendo roupas sujas de tinta. Enfim acho muito foda quando isso acontece. Aconteceu também uma vez fazendo uns pixos no Socorro. Um garoto veio de skate, viu o que eu estava pixando e voltou pra frente da portaria do prédio que ele morava e disse pros amigos: “É o Hotcity!” Isso realmente não tem preço.

Uma ruim: o prédio que eu tomei processo na Henrique Schaumann em Pinheiros. Já tínhamos terminado, estávamos saindo fora quando o síndico do prédio armado disse: “Nem desce! Já chamei a Polícia”. Sentamos na beira da caixa d’água do prédio e assistimos aquelas cinco viaturas chegando pra nos buscar. Fomos pra Delegacia de Pinheiros algemados. Ficamos no ‘corró’ das 5 da manhã às 2 da tarde: Eu, Billy e o Isac (SS) dentro da cela. Já estava pixado de chave nas paredes Kop, Lin e outros pixos que não me lembro. Foi foda! Tive que deixar um Hotcity lá tambem né (risos).

9- Hoje em dia você mora nos EUA. Como é morar em um país considerado primeiro mundo?

Estou em Los Angeles. Lembra muito São Paulo, ta ligado? O povo acha que aqui é mil maravilhas mas não é. Americano é especialista em esconder sujeIra debaixo do tapete. Aqui tem mais moradores de rua do que em São Paulo e pasmem: aqui também tem uma Cracolândia no Centro, ‘downtown’ maior que a de São Paulo. Para mim o diferencial deles é a segurança. Aqui ninguém saca o “oitão”, põe na sua cara e diz: “dá o celular!” Isso aqui não acontece, as leis são pesadas aqui!

10- Já saiu pra dar um rolê ai? Como foi a experiência?

Sim. Fiz uns no baixo e fiz um Pico. A Adrenalina foi a mil, experiência única. Creio que tive cautela máxima na hora da ação. Juntada as experiências de anos pixando tive êxito. Entrei e sai sem ser percebido mesmo havendo câmeras.

 

Skid em ação em Los Angeles: entrar e sair sem ser notado.

 

11- Espaço livre pra falar o que quiser.

Agradeço pelo convite e pela oportunidade. Se não me engano é a Quarta entrevista nesse formato que eu dou. Acho interessante passar a visão do movimento paras gerações futuras, que eles entendam que pixar não é só pegar a lata e raspar no muro, que eles procurem saber das historias por trás do movimento e que mantenham o respeito sempre. Existe uma frase que diz: “A pixação é pra todos, mas nem todos são pra pixação!”.  Pegou a visão? É desse jeito!