Entrevista – Eneri

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Eneri pode ser considerada atualmente um expoente da nova geração da pixação paulistana. Especialista em escalada, pico, escada, chão, pé nas costas, throw-up e tudo que aparecer pela frente, a escritora conversa com BC pela primeira vez sobre sua paixão por plantas e pixar janelas por aí.

01- Da onde vem o nome “Eneri”?

Eneri é meu nome ao contrário. Uma vez pesquisei que Irene significa ‘paz’ e como o pixo tem mais a ver com o caos achei que já ia dar um conceito maior.

01- Where does the name “Eneri” come from?
Eneri is my name written backwards. I once looked it up and found that Irene means ‘peace’, and since graffiti is more about chaos, I thought it’d give it a greater concept.

02 – Você vem de uma nova geração de escritoras que escala prédios, a modalidade mais arriscada e também faz pico, enfim, o que aparecer na frente. Como e quando começou a se interessar por pixação?

Comecei a me interessar por pixação em 2013 quando fui no point do centro pela primeira vez. Fiquei uns meses colando lá e prestando atenção pra entender como funcionava, as grifes, modalidades, materiais. Daí comecei pela tag, throw-up e depois veio o pixo.

02 – You belong to a new generation of writers who climb buildings, which is the most risky type, and you also do high peaks, or whatever comes up. How and when did your interest in pixação first came up?
I became interested in pixação in 2013, when I went to the meeting spot in São Paulo downtown for the first time. I kept going there for a few months, paying close attention to understand how everything worked, the crews, modalities of pixação, and materials. I started by tagging, then doing throw-ups, and then pixação.

03 – Como é ser uma mulher dentro do movimento da pixação hoje em dia?

O machismo está inserido em qualquer contexto da mulher e não seria diferente dentro da pixação, ainda mais sendo um ambiente predominantemente masculino.. nunca vivenciei nada de exorbitante, acaba vindo de uma forma mais velada. É interessante ver movimentações femininas que rolam em contra partida, como o próprio Grapichurras das minas. Mas mesmo tempo, as vezes sinto uma visibilidade maior por ser mulher e por consequência minoria.. entretanto é isso, estamos chegando e dominando espaços.

03 – What is it like to be a woman in the pixação movement of today?
Sexist is inserted in any context and this is not different in the graffiti world. Even more being a predominantly male environment. I never experienced anything exorbitant but it ends up appearing in an unseen way. It is interesting to see women’s movements like the ‘Grapichurras das minas’ for example. But at the same time, sometimes I feel a greater visibility for being a woman. However that is it, we are arriving and dominating spaces.

04 – Suas letras chamam atenção por serem muito diferentes. Como foi o processo de criação delas?

Foram inspiradas em um dos letreiros do pixo CORRÓ, lá de Cangaíba. Acredito que tudo o que as pessoas, pixadores e artistas produzem vem de referências já existentes mas cada um modifica e aprimora aquilo com base na sua própria personalidade e na forma de expressão.

04 – Your lettering always draws attention for being very different. How was the process of creating it?
They were inspired by one of the CORRÓ writings, from Cangaíba (a district in the municipality of São Paulo). I believe that everything people, pixadores, and artists make is based on existing references, but each one customizes and upgrades it based on their own personality and means of expression.

05 – Quais são suas influências dentro do movimento?

Minha maior referência é a Jack (Parceiros). Mas além dela tiveram muitas referências masculinas e femininas.

05 – What are your influences within the movement?
My greatest influence is Jack (Parceiros). But besides her, there are lots of male and female references

06 – O que a pixação te proporcionou todos esses anos? E o que ela te tirou?

Me proporcionou diversos momentos, vivências, amizades, ir pra lugares dentro da minha própria cidade que eu jamais passaria na intenção de buscar lugares novos para espalhar meus riscos. A escalada proporciona pontos de vista diferenciados, além da adrenalina e a busca constante pela superação. Também diversos conflitos dentro de casa, alguns processos, agressões físicas. Tirou praticamente a possibilidade de lecionar devido minha ficha, um dos motivos que me fez trancar a licenciatura em artes que eu fazia e repensar outras alternativas.

A escalada proporciona pontos de vista diferenciados, além da adrenalina e a busca constante pela superação.

06 – What has pixação given you in all these years? And what has it taken from you?
It has given me several moments, experiences, friendships, chances to go places in my own city that I would never have gone to, just to look for new places to tag. Climbing gives me different points of view, along with the adrenaline and the constant pursuit to outdo myself. There were also many conflicts at home, some legal issues, physical abuse. I basically lost the possibility to teach due to my record, which is one of the reasons why I dropped the arts bachelor course that I was taking and started considering alternatives.

07 – Muitos pixadores acreditam que a essência do movimento é o protesto e a resistência contra o sistema. Não seria mais justo consigo mesmo definir como ego, busca por adrenalina ou simplesmente diversão?

Não, pois um não anula o outro. Claro que acaba trazendo uma auto-estima, adrenalina. Mas ainda sim transgride leis e fazendo isso você se opõe a um sistema imposto, coloca sua integridade em risco, mesmo que sem a consciência total disso. Assim como um artista que expõe um trabalho e que milita contra o sistema não deixa de sentir seu ego fortalecido vendo seu trabalho em pauta.

07 – Many pixadores believe that the essence of the movement is protesting and fighting against the system. Wouldn’t it be more honest to define it as ego, a search for adrenaline, or simply fun?
No, because one thing doesn’t erase the other. Of course it builds some self-esteem and adrenaline. But it still breaks laws, and by doing that you oppose an imposed system, you put your integrity at risk even if you’re not fully aware of it. Just as an artist that shows their piece and defies the system doesn’t stop feeling their ego boosted when they see their work gaining space.

08 – Até que ponto vale a pena os riscos e abdicar das demais coisas pra continuar pintando?

Vai do quanto isso é importante pra cada pessoa, o quanto cada um se identifica. Busco amenizar os riscos do jeito que dá sem deixar de fazer aquilo que amo.

08 – To what extent is it worth the risk and abdicating of other things to continue painting?
This depends on how important it is for each individual, how much they identify with it. I try to minimize the risks as much as I can, while continuing to do what I love.

09 – Escalar prédios sempre renderam histórias, missões frustradas e bem sucedidas. Qual dentre elas ficou na sua recordação?

Várias. A que veio na cabeça agora foi a minha primeira canseira na polícia. Fomos fechar as varandas de um prédio comercial na rua Pamplona. Estávamos cada um em um andar terminando os pixos quando a polícia chegou. Ficaram lá de baixo gritando que iam atirar, que iam pegar o drone (risos). Fiquei com bastante medo mas quando me dei conta os meninos estavam descendo e me acordando pra avisar que já tinham ido embora. Terminamos rapidinho, fizemos as grifes e saímos vazados.

09 – Climbing buildings always results in stories of failed and successful missions. Are you fond of any of them?
Several. The one that comes to mind right now is of the first time I ran from the police. We went to paint the balconies of a commercial building on Pamplona Street. We were each on different levels finishing our pixação when the cops showed up. They were down there yelling about how they’d shoot us and use their drone (laughs). I was pretty scared, but when I realized, the guys were already running downstairs and telling me the cops had left. We quickly finished up, tagged it and got out.

 

Eneri no seu ambiente preferido: topo da cidade.

 

10 – Quais são seus planos e ambições dentro da pixação?

Quando comecei a pixar não tinha pretenção alguma além de fazer o que eu gosto. Nunca imaginei a repercussão que meu rolê teve, nem nos meus melhores pensamentos. Sempre busquei a auto superação e uma auto satisfação com o que faço. Hoje em dia consegui alcançar diversas metas, riscar com muita gente que me inspirava e acabei vendo outras portas que antes eu nem conseguia visualizar se abrindo para mim. Ando buscando um reconhecimento artístico não só através da pixação mas sem precisar comercializar meu pixo, estudando outras possibilidades apesar de ser tão difícil as pessoas consumirem arte.

10 – What are your plans and ambitions regarding pixação?
When I started doing pixação, I had no intentions besides just doing something I like. I never imagined the repercussions that my activities had, not even in my best dreams. I’ve always tried to overdo myself and get satisfaction from what I do. Now I’ve managed to reach many of my goals, write with a lot of people who inspire me, and I ended up finding other opportunities that I never imagined for myself. I’ve been striving for artistic recognition not just through pixação, but without having to commercialize my writings – studying other possibilities, even though it’s so hard for people to consume art.

11 – Qual a trilha sonora quando vai pro rolê? Quais são suas referências de arte, música etc.?

Puts, essa é complicada porque sou uma pessoa muito eclética. Quando comecei a riscar ouvia muito Facção Central, Consciência Humana, As Trinca, Dina Di, Quinto Andar, Trilha Sonora do Gueto, entre muitos outros nacionais e internacionais que são clássicos. Sempre frequentei bastante ‘sound system’, o que me fez apreciar muito o reggae, todas as suas vertentes também e conhecer diversas pessoas da cena como Kas Dub, Caiuby, Miss Ivy, Sistah Chilli.

Ultimamente tenho ouvido e buscado bastante umas referências atuais como Zudzilla, Murica, Victor Xamã, Edgar, Dimsan, e muitos outros que não vou lembrar nesse momento ou já estão consagrados como BK, Akira Presidente etc. Busco também um repertório feminino como Laura Sette, Mac Júlia, Cristal, Julia Costa, Ebony, Laysa, Killa Bi, AltNiss e outras mais.  Tenho ouvido bastante Suicide Boys, mas vou deles até pontos de umbanda, funk, sambão. De tudo um pouco.

Referências artísticas são diversas e minha memória não é das melhores com nomes mas ao que me vem agora são: Leonilson, Alex Flemming, Maria Auxiliadora da Silva, MIA, Cripta Djan, Lady K, Giovana Pratt, Biocin, Emily Freitas e Pietra Kovac.

11 – What is the soundtrack for when you’re hanging out? What are your artistic and musical references?
Damn, that one is hard because I’m very eclectic. When I first began writing, I’d listen to Facção Central, Consciência Humana, As Trinca, Dina Di, Quinto Andar, Trilha Sonora do Gueto, among many other national and international classics. I’ve always gone to ‘Sound System’ a lot, which made me really appreciate reggae and all its styles, and I got to meet a lot of people from the scene, such as KasDub, Caiuby, Miss Ivy, Sistah Chilli.
Lately I’ve been listening a lot to, and searching for current references like Zudzilla, Murica, Victor Xamã, Edgar, Dimsan, and plenty of others that I won’t remember right now but who are well-known, like BK, Akira Presidente, etc. I also keep a female repertory, including Laura Sette, Mac Júlia, Cristal, Julia Costa, Ebony, Laysa, Killa Bi, AltNiss and many others.  I’ve been listening a lot to Suicide Boys, but I range from them to Umbanda songs, Brazilian funk, samba. A bit of everything.
My artistic references are varied and my memory is not great when it comes to names, but some that come to me now are: Leonilson, Alex Flemming, Maria Auxiliadora da Silva, MIA, CriptaDjan, Lady K, Giovana Pratt, Biocin, Emily Freitas, and Pietra Kovac.
12 – O que você faz além da pixação?

Gosto muito de plantas, tenho uma diversidade até que grande em casa que dedico um tempinho pra cuidar e que acabam me inspirando a desenvolver trabalhos com relação a elas também. Mesclo uns grafites, ações com uns textos. Pra quem quiser acompanhar tá no insta @irene.avramelos.

Sempre curti muito uns roles mais ‘underground’ também como uns points, batalha de rap, eventos abertos na rua feitos por diversos coletivos de reggae e rap independentes. Também vou muito pro ‘SP na Rua’, ‘Virada Cultural’. Busco conhecer exposições sejam em galerias ou centros culturais. Gosto muito da ocupação Ouvidor 63.

Agora por conta da pandemia comecei a buscar mais referências através de filmes e me desenvolver em outras áreas. Uma que tenho focado bastante é a tatuagem. Sempre gostei muito e é um dos ramos da arte mais consumidos, inclusive quem quiser eternizar um trampo comigo tenho marcado os horários pelo perfil @eneri.tattoo.

12 – What do you like to do besides pixação?
I really like plants. I have a pretty nice variety of them at home and I take some time to care for them, which ends up inspiring me to develop pieces themed around them. I mix graffiti with actions and texts. If anybody wants to check it out, my Instagram profile is @irene.avramelos.
I’ve always enjoyed more underground scenes, like spots to hang out, rap battles, open street events held by independent reggae and rap collectives. I enjoy going to events like ‘SP na Rua’ and ‘Virada Cultural’ as well. I try to find exhibits in galleries or culture centers. I really like the Ouvidor 63 artistic occupation.
Now, because of the pandemic, I started looking for more references in movies and tried to develop other skills. One thing I’ve been really focused on is tattooing. I’ve always enjoyed it and it’s one of the most consumed types of art. By the way, if anyone wants to book a session with me, they can contact me through my profile @eneri.tattoo.