Entrevista – Dino (Exclusivo)

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Vulgo: Dino
Turma: Pixar é Humano
Ano que começou: 1989

A alguns dias que antecedem a exposição “#DI#: Pixar é Humano”, Dino, veterano das ruas, conta em entrevista exclusiva ao BC um pouco de sua trajetória e de sua amizade com Edmilson Macena de Oliveira, o #DI#, considerado por muitos como o maior Pixador da década de 90.


1)No dia 28 deste mês haverá uma exposição em homenagem ao #DI# e você foi um dos apoiadores e contribuidores do projeto. Como é ver isso sair do papel e acontecer?

É ver nascer um projeto que já penso a 19 anos. Já propus para outras pessoas e em outros locais mas acho que esse era o momento adequado. A gente conseguiu uma parceria interessante, os caras abraçaram nosso projeto, compreenderam a importância dessa exposição para as artes de rua e essa parceria está sendo muito construtiva. Vai ser um evento digno, estamos fazendo um evento de porte considerável, com uma estrutura bem legal. Embora não tenhamos apoios externos, tamo na correria. Vai ser algo bem bonito, de uma qualidade bem legal e que vai ser compatível com a história desse grande personagem das ruas de São Paulo, dessa grande lenda urbana e nosso grande amigo também.

 

2) Você é já deixou explicito sua amizade e admiração ao Edmilson. Como foi que se tornaram amigos?

O #DI# serviu de influência para eu começar a fazer os meus primeiros rabiscos, inventar o nome, começar a pixar na rua da minha casa, isso tudo em 1989. Minhas grandes influências na época eram o próprio #DI#, o Telão que era um nome da região e o Bacanas SP, outro nome forte aqui pros lados da Zona Oeste. Meu primeiro contato com o pixo do #DI#, que comecei a notar foi no começo de 89. Eu pensava que o que ele estava representando era a sigla “Diferente Di Diferente” (em razão dos sinais que antecedem e procedem a inscrição “DI”). Pensava que a mensagem que ele queria mandar por trás daquilo é que ele era igual as outras pessoas, ficava viajando nessa questão filosófica. Ai acabo conhecendo ele em 1990, ele conhece meu primo na porta da escola. A gente andava de skate na época, ele tinha umas rodinhas para vender e a gente foi trombar ele. Nunca esqueço dessa cena. Trombei ele aqui na vila, vivia mais aqui no meu bairro do que no bairro onde ele morava, aqui na Vila São José. Aí encontrei ele andando de mobilete, ele já tinha uma grande amizade com o KIDÃO que era uma pessoa que eu conhecia desde a infância. Ai encontrei o#DI#, troquei uma ideia com ele e já tive uma afinidade, sempre foi uma pessoa receptiva, bem alegre. Aí começamos a se encontrar, se trombar nos rolês da vida e a partir de 1993 é que eu fui fazer a primeira pixação ao lado dele, o que foi algo bem marcante na minha trajetória dentro da pixação. A partir daí passamos a andar juntos, íamos em baladas na época. A gente ia muito para salões, fizemos muitos rolês fora da pixação e fomos fortalecendo esse vínculo de amizade, de parceria.

 

3) Tem alguma história para contar para nós que tenha passado com o #DI#?

Histórias são várias (risos). Em cada rolê você sai com uma história para contar. Tem várias mas vou contar uma em específico sobre um prédio amarelão lá na Francisco Morato. No dia anterior a esse feito a gente tinha feito um prédio de vidro na Faria Lima, numa sexta-feira. No sábado faríamos o prédio amarelão da Francisco mas não tínhamos rolo.A gente tentou pular nesse prédio que já tínhamos feito na noite anterior para pegar o material que largamos lá. Quando pulamos para dentro do prédio para pegar o rolo que a gente tinha deixado saiu um monte de gente de lá, uns caras que estavam fazendo reforma no prédio, um prédio bem chique. Eles nos viram, saíram correndo atrás da gente e acabamos não arrumando um rolo para pintar. Aí fomos caminhando até a Francisco Morato, sabia que o#DI# já tinha feito aquilo. O Killer já tinha me contado da história que o #DI# já tinha feito um rolo dessa forma. O #DI# pegou uma espiga de milho e um arame, foi furando a espiga na maior tranquilidade, daquele jeito característico dele. Ele literalmente manufaturou um rolo com espiga e um arame. Depois deu a maior briga pra quem ia ceder a meia pra gente fazer o rolo. O rolo ficou perfeito, fizemos o prédio como se fosse com um rolo comprado. O #DI# era extremamente criativo.

 

4) Depois de tantos anos dentro do movimento, você já presenciou e vivenciou muita coisa.O que mudou na pixação em todos esses anos?

Durante todos esses anos já vivi tanta coisa na pixação. Algo que acho interessante, que mudou muito, foi essa questão da exposição. Eu sempre falo que a pixação antigamente era mais romântica, as pessoas não se conheciam. Você conhecia o pixo, ouvia falar das pessoas mas por mais que colasse em point, conhecesse algumas personalidades, tinham muitas incógnitas na pixação. Isso era bem legal, mexia com o imaginário das pessoas. Era uma época que você andava nas ruas, ouvia falar diversas histórias, ninguém se conhecia. Cada um colava com o pessoal da sua quebrada, tinha sua panelinha específica. Havia essa questão da rivalidade mas guerra nunca, uma rivalidade sadia de querer fazer uma coisa mais legal que o outro, fazer a quebrada do outro e tal, como continua até hoje. Hoje em dia acho que há uma maior facilidade das pessoas é o acesso as outras pessoas, as personalidades fortes do movimento. As pessoas acabam chegando mais facilmente, todo mundo sabe quem é, sabe de cor a fisionomia da pessoa. Antigamente a gente trabalhava muito mais com o imaginário, era uma época bem mais romântica.

 

5) #DI# na sua opnião foi o maior de todos? Tem alguém que talvez tenha se equiparado a ele?

Na minha opnião o #DI# foi o pixador mais completo de São Paulo. Na época dele ele conseguiu superar os adversários, os caras que também tinham nome. Ele chegou , conquistou seu espaço e deu continuidade, conseguindo superar todos. Ele é o pixador mais completo de todos os tempos. Ele é o cara que pixou muito chão, pixou chão pra tudo quanto é lado. Em 199o ele já tinha ido pra lugares como Cidade Tiradentes, já estava quebrando as barreiras da cidade, uma coisa que não era muito normal pois a pixação era mais centralizada. Ele chega final da década de 80, começo da década de 90 e já começa a expandir a pixação. Começa a fazer prédios e não cessa nessa modalidade, sempre buscando pixar os maiores prédios. E faz muito pico também, fez pico demais. A quantidade que ele fez de prédio, que é absurdo, ele também faz de pico. Ele repete nesta outra categoria. Por isso pra mim o #DI# foi o pixador mais completo que existiu.

 

6) A pixação sempre foi alvo de críticas e repugnância da maioria das pessoas. Acredita que isso hoje seja em menor proporção? Acredita que a pixação como elemento pertencente ao cenário da cidade desde o final da década de 80 já é mais bem aceita pela sociedade?

Acho que a pixação não vem sendo aceita. A gente pode ver a pixação nos programas de televisão que a mídia continua manipulando. Só que ela tem sido muito usada né? Usada comercialmente. As grandes marcas, os grandes eventos usam pixação. Lembro de um ano onde chamaram o Boleta para fazer no SPFW um cenário de cidade de São Paulo por exemplo.  E não da pra desvincular a pixação da cidade de São Paulo, ela já está incrustada na história da cidade. Muitas pessoas hoje em dia vem a cidade para ver a pixação. Muitos vem com o primeiro pensamento de ver graffiti mas quando se deparam com a pixação, esse movimento único e inovador, eles se apaixonam mesmo, querem ver pixação. Faz parte da cidade. Eu mesmo já fui contratado para fazer cenário de filme,  os caras querem pixação. Não dá pra dizer que você esteve em São Paulo sem ver a pixação na cidade. Mas acho que a pixação não é ainda aceita. Acho que continua com a mesma visão da sociedade e acho que isso é bom. Por isso é importante colocarmos em pauta sempre que tiver oportunidade falar, se expressar e mostrar os fundamentos dessa nossa cultura de rua, essa cultura de protesto e toda função político-social que a pixação carrega, de denúncia das disparidades sociais. Sendo a antítese da invisibilidade social, a voz dos jovens pobres da periferia querendo alcançar seu espaço, interagir com a sua cidade, tornar a cidade um pouco nossa também.

 

7) Da onde vem o nome Dino? De quebrada você é?

Meu apelido foi eu que inventei. Engraçado que ninguém me deu esse apelido. Em 1989 eu estudava na Vila dos Remédios, era um grande centro, quebrada do Telão, dos pixadores mais antigos da minha região, onde o #DI# também morava. Ia começar a pixar o nome “Neto” que era meu sobrenome só que tinha um outro “Neto” nos Remédios. Como comecei a pixar de canetão na escola e tal, estava começando a pensar em pixar de spray, fazer uns pixos aqui no meu bairro já que tinha esse Neto, de maior expressão, eu desisti. Comecei a inventar um apelido e como meu nome começa com “D”, me baseei no dinossauro na dos Flintstones e achei legal o apelido e me dei esse apelido, Dino.

 

8) Como começou a pixar?

Comecei a pixar no final da década de 80, mais precisamente em 1989 começo a fazer meus primeiros riscos aqui na rua da minha casa, com meu primo Kuba. Era uma época de muita efervescência cultural, todo mundo tava pixando. Nessa época houve um grande ‘boom’ na pixação, você colava nas portas das escolas e elas estavam todas lotadas, colavam algumas personalidades que já eram influentes, que já tinham renome nessa época. Colavam e pareciam ‘pop stars’ nas portas das escolas. Isso influenciou toda uma geração, todo mundo começa a pixar por isso, para buscar essa aceitação no meio social. E também tem muito desse glamour, você via os caras todos cercados e você quer fazer parte disso, conquistar essa admiração e esse reconhecimento através da pixação

 

9) Como era pixar no final da década de 80, começo dos 90?

Ah, pixar nos anos 90 era muito legal, era desbravar as cidades. Era legal essa dinâmica que a gente tinha de ir para um lugar desconhecido. Catar o ônibus no terminal, no centro, o Parque Dom Pedro, o Terminal Bandeira, escolher uma zona da cidade, pegar um ônibus, ir até o final do trajeto dele vendo como seria o caminho que você voltaria fazendo, voltaria pixando, vendo as coisas que você tentaria fazer e conhecendo a cidade a fundo né? Conhecendo a característica de cada região, os bairros novos que iam se formando pela cidade, uma política de conquista da cidade, de conhecer a fundo. Tem a questão do contato também. Quase ninguém tinha telefone em casa, você ligava no orelhão do bar ou na casa da vizinha ai marcava de falar com a pessoa em meia hora, marcava o rolê, as vezes no point também. Com rolê marcado você tinha que cumprir com a sua palavra porque se não você podia deixar seu amigo sozinho, no meio da madrugada, não tinha busão noturno. Se perdesse depois da meia noite só conseguia pegar 4 horas da manhã, se rodasse tinha que esperar os ônibus para voltar. Era essa a dinâmica dos anos 90.

 

10) O que a pixação te proporcionou e o que ela te tirou?

O que a pixação me tirou muitas noites de sono e muita roupa (risos). Perdi muita roupa no rolê. Nesse prédio que citei na Faria Lima estava com uma calça nova, meio bege. Virei ela do avesso, pensei que não ia sujar mas quando sair a calça estava toda suja de esmalte sintético. Já perdi tênis, muita coisa. Mas só coisas materiais, pequenas, que fazem parte do rolê e que contam nossa história também. Agora o que ganhei na pixação foram as amizades. Tenho diversos amigos que são meus amigos a mais de vinte anos,vinte e três, vinte quatro, vinte cinco anos. Algum dos meus amigos da pixação por exemplo são padrinhos meus de casamento. Minha vida gira muito em torno da pixação. Graças a Deus conquistei grandes amizades nesse universo.

 

11) Deixamos esse espaço para falar o que quiser Dino.

Queria agradecer em primeiro lugar pelo apoio e divulgação da nossa exposição por parte do pessoal do Beside. Mandar um salve para a rapaziada, meus amigos de todas as regiões de São Paulo, todos os pixadores, os mais antigos e os mais novos. Acho que a pixação é uma coisa só e o movimento é forte por causa da nossa união. Uma andorinha só não faz verão, todos juntos formamos esse movimento forte, esse movimento que é admirado. Admirado até mais internacionalmente que nacionalmente, um grande expoente da arte brasileira. Espero que todo mundo possa prestigiar a nossa exposição a esse grande amigo que tivemos. Vamos lançar também o documentário e alguns outros projetos em homenagem ao nosso amigo. Como diz a Martha Cooper: “Keep writing”, sigam pixando! Tamo junto!

*No dia, para quem se interessar, estará a venda a camiseta da grife “Pichar é Humano”.  Informações, reservas e valores direto na A7MA no dia do evento.

 

Veja os áudios da entrevista: