Entrevista – Brutais (Exclusivo)

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Você está fazendo o que sente vontade de fazer, sabendo que a consequência pode não ser das melhores. Você está se impondo e erguendo a bandeira de um movimento! Então acredito que seu graffiti já fala por si, já luta pelo seu espaço, por sua existência.
01 – Brutais apesar de ser uma turma ficou muito associado aos grapixos que você fez. Como entrou para turma? Seu começo no graffiti foi na turma Brutais? Conte um pouco para nós desse começo.
Entrei para a turma através de amigos que já faziam parte dela. Desde 2002 faço meus rabiscos e tudo aconteceu de forma muito natural. Fazia minhas ‘tags’ na escola, isso com uns doze anos de idade quando rolou um episódio muito marcante pra mim nesse ano. No caminho da escola para casa estava rolando um evento “nervoso” de graffiti. Nunca tinha visto algo parecido até aquele momento. Tanto o graffiti quanto a pichação faziam parte do cenário mas nunca tinha visto a coisa realmente acontecendo e daquela forma, uma enorme reunião de artistas vindo de vários cantos do mundo. A partir daquele dia comecei a pixar, conheci Omar, hoje integrante dos ‘Warriors’, (abrevia-se W*R*S) e saímos dali onde rolava o evento em sentido a uma quebrada onde ele havia “ganhado” uns muros pra gente fazer. Com rolinho e tinta, à luz do dia mesmo, pixamos a caminhada inteira até o bairro de destino. Dali em diante comecei a trombar Omar com bastante frequência, pelos terminais de ônibus e nos points que rolavam em Santo André. Lembro que na maioria das vezes que a gente se trombava já estávamos assinando o nome de outras turmas. Lancei várias: ‘Menores’, ‘Dementes’ e ‘Infra’ são algumas delas. A última antes de entrar pro ‘Brutais’ foi a ‘Criminal*Boys’ (abrevia-se CL*BS), uma turma da zona sul região do Heliópolis, Ipiranga. Nesse tempo pixava muito com um brother, o “MA”, ele fazia parte da turma ‘BAC’ de São Caetano. Pelo fato da gente sempre estar sempre pixando juntos, um dia lançamos a idéia de fazer o mesmo nome, assim os rolês ficariam mais econômicos e conseguiríamos espalhar mais nosso nome pela cidade. Ele inventou umas letras iradas para o nome ‘Múmias’. Abracei na hora, fizemos alguns rolês e esses eram bem menos limitados que antes. A gente fazia uns “pé nas costas” bem rápidos, possibilitando assim fazermos lugares mais arriscados. Foi um período curto que eu curti bastante porque logo em seguida meu brother “MA” recebeu a proposta (ou pediu, não sei ao certo) de seu irmão para entrar para o ‘Brutais’, turma que ele fazia parte. Lembro que a gente achava foda a história da turma, tínhamos acesso a pasta de fotos.  Era uma pasta mágica pra gente, vivíamos folheando e os olhos brilhavam a cada página. Continha uma quantidade irada de prédios espalhados por São Paulo, a ação do muro do Ceagesp, um dos maiores pixos que havia visto até ali. Ele não pensou duas vezes para fazer parte da turma. Chegamos até a pixar juntos, ele assinando ‘Brutais’ e eu ‘Múmias’, mas não demorou muito para eu começar a assinar junto a ele. Acho que isso foi 2007/2008. No começo era só pixo mas lá pra 2009 a gente já mandava uns contornados. Conhecemos um escritor do bairro, da turma ‘Corvo’ que assinava “RSN”. A partir disto enxergamos outras possibilidades. O “RSN” já mandava uns trampos irados na base dos pixos nos cantos mais sujos ali do nosso bairro e fizemos bastante rolês juntos. Foram boas vivências.
Mumias e Brutais: começo na pixação.
02 – Você foi um dos primeiros caras que exploraram a estética de fábricas e lugares abandonados junto ao graffiti aqui em São Paulo. Como surgiu o interesse por lugares como estes? Qual a sensação de pintar lugares como estes?
Acredito que não tenha sido um dos primeiro a explorar esses lugares.  Comecei a fazer a partir de amigos que já conheciam essa cultura, fazer os abandonados foi uma parada que foi acontecendo naturalmente. Curto muito os rolês de rua também. Conheci bem São Paulo por conta dos rolês de ‘throw-up’  e pixo. Ali você está completando o cenário do dia, o comerciante vendendo, as fábricas a todo vapor, as pessoas indo e vindo e você em meio ao caos da cidade. Já nos abandonados você está isolado de todo esse caos, muitas vezes junto aos “excluídos” que ali se encontram. As sensações são várias, ao mesmo tempo que você está em paz longe do caos você está num lugar onde desconhece as leis, sabe qual é?
03 – Porque escolheu transitar da pichação pro grapixo/graffiti?
Acho que isso aconteceu pelo fato de gostar muito de ambos, de gostar de arte de rua em geral. Morava em Santo André e via tanto a galera do pixo quanto a galera do graffiti se juntando e fazendo acontecer. O que foi rolando foi uma questão de se encontrar manja? Eu ali fazendo meus pixos me sentia muitas vezes apenas mais um no cenário, um vasto cenário de nomes e estilos e que pra você se destacar você tem que fazer uma parada diferente e verdadeira.  Essa transição ao mesmo tempo só difere na questão estética porque hoje em dia faço meus trampos da mesma maneira que sempre rolou sabe?  Só me acrescentou explorar esse universo do graffiti, que de certo modo reflete até o lance de amadurecimento pessoal. No começo era tudo no impulso e hoje já exige mais responsabilidade.
Brutais: um “grapixo”que mistura seus anos na pixação e no graffiti.
04 – Em todos esses anos de graffiti e pixação muita coisa mudou. O que sente falta de épocas passadas e o que não abriria mão dos dias de hoje ?
Mudou muito. Com a vinda da internet as coisas se tornaram muito mais práticas. Com isso veio a banalização em varias as áreas.  Sinto falta disso, do clima que tinha quando não era tão fácil o acesso. Ao mesmo tempo a internet nos deu acesso a muita coisa que não tínhamos, acabou com muitas fronteiras e hoje em dia só se limita quem de fato quer ser limitado.
05 – Acredita no graffiti como forma de protesto?
Com certeza! O protesto pode não partir de forma direta ou com ideias partindo de um fundamento politico ou protestante. Você está fazendo o que sente vontade de fazer, sabendo que a consequência pode não ser das melhores. Você está se impondo e erguendo a bandeira de um movimento! Então acredito que seu graffiti já fala por si, já luta pelo seu espaço, por sua existência.
06 – Você sempre transitou bem na pichação e no graffiti. Quais são suas principais influências dentro dos dois movimentos?
Nunca fui o cara das ações mais aclamadas manja? Mas sempre estive na atividade, deixando minha marca pela cidade, da minha maneira. Fui muito influenciado tanto pelo pixo quanto pelo graffiti. Muito das minhas influências no começo eram de forma indireta. Eu não era tão inteirado com a galera. Depois, quando de fato comecei a fazer uma parada com mais confiança, isso se deu pelo fato de estar na influência de manos como ‘Dheeni’, que me passou muito sobre o conceito de graffiti, meu mano ‘Corvo’ que me acompanhou ali no período de viver o graffiti de fato. Passei por um período na vivência com o artista ‘Emol’ que me influenciou bastante também, a crew “ST” da qual já não faço mais parte. Acredito que aprendi muito com essa galera.
Respeito é a chave e gosto de toda a diversificação que existe. Tem espaço pra todos: pro estudioso, pra quem se arrisca nas madrugadas, pra quem arrisca sua vida pra deixar seu nome no topo e até mesmo pro cara que faz só no fim de semana com seus amigos pelo simples fato de estar junto interagindo.
07 – Muitas são as experiências vividas por quem se arrisca pintando. Conte pra gente alguma experiência diferente em todos esses anos de caminhada.
Essas vivências são essenciais, nos rolês sempre acontecem coisas surreais. No começo, acho que 2005 ou 2006, eu e mais um brother fomos fazer a área onde ia rolar uma festa de pixo. Quando fomos fazer a lateral acabamos tendo que dar fuga. Uma viatura veio “babando” pra cima da gente e dispensei uma lata. Só escutei o barulho do tiro. Pensei comigo: ‘Agora já era’. O policial deu um tapa na minha nuca daqueles bem servidos. Quase fui a nocaute. Quando eles entenderam que se tratava de pichadores o clima mudou. Eles estavam respondendo o chamado de que ladrões estavam invadindo uma casa e por isso foram hostis. Dali em diante ajudaram a gente a pegar a lata e mostraram preocupação com o tapa que deram. Nos dispensaram apenas com a instrução de não pixar a casa de qualquer um. Teve um muito marcante também em 2009, Best Shopping. Eu, Ma e Daniel Melim achamos um espaço irado, acho que no segundo andar se não me engano, e fechamos a ideia dividimos o espaço. Começamos sem novidades mas esses lugares são sempre imprevisíveis. Nesse dia surgiu um morador que residia ali, nós cumprimentamos, fomos bem recebidos e ali ficamos trocando idéia em meio ao processo do graffiti. Nesse graffiti o Melim havia feito uma imagem de um punk empunhando sua noiva na cena clássica do beijo. Brother, ali o cenário se completou. Aquele morador que estava ali era um punk da velha escola, “cascudão”,  e morava ali com sua esposa. Ele correu vestir sua jaqueta de couro, pegar suas correntes. Chegamos a registrar a cena dele reproduzindo em frente ao graffiti a posição dos apaixonados com sua esposa. Esse rolê me marcou bastante.
Rolê marcante ao lado de Daniel Melim: histórias inusitadas nos mais de 15 anos de rua.
08 – O que mais te irrita no graffiti? E o que mais gosta dentro do movimento?
Tanto no graffiti quanto na vida que se leva odeio “disse-me-disse” manja?  Respeito é a chave e gosto de toda a diversificação que existe. Tem espaço pra todos: pro estudioso, pra quem se arrisca nas madrugadas, pra quem arrisca sua vida pra deixar seu nome no topo e até mesmo pro cara que faz só no fim de semana com seus amigos pelo simples fato de estar junto interagindo. Acho que isso torna nossa cena uma das mais ricas e verdadeiras que existe.
09 – Como enxerga a cena no ABC?
Acho bem rica a cena daqui. Nos anos 90 grandes nomes do graffiti e da pichação saíram daqui. Santo André acredito que seja o berço do ABC: ‘The Nitros’, ‘Guerra de Cores’, ‘Malucos’, ‘Patrões’, ‘AV Crew’, ‘Lixomania’, ‘Wolfs’ entre outros nomes serviram de alicerce pra uma nova geração de escritores e grafiteiros que se formou ali no inicio dos anos 2000 mas que já vinha com outra cara.  Já começava a aparecer os throw- ups do ‘Chorão’ (DEP Crew). Lembro de um mano que fazia “Grito” nessa época, ele chegou a fazer bastante por ali onde eu andava. ‘Os Cururu’ nas janeladas, ‘Jets’ nos prédios. Nesse tempo acompanhava a cena mais ali de Santo André mas as outras cidades também tinham seus nomes de destaque.  São Caetano gostava do ‘Urso Morto’, ‘Os igual’, ‘Dheeni’, ‘Bigho’, ‘LSD’, ‘Nobres’ e ‘Oito ou Oitenta’. São Bernardo tinha a ‘Ducontra’, ‘Cena 7’ e ‘Foco, a 165’ faziam vários prédios, era uma banca “nervosa”. Basicamente foi isso que cresci acompanhando. A nova geração também acompanho o rolê de mó galera.
10 – Paralelo ao graffiti você tem também um estudo de fotografia, texturas e colagens que pouca gente tem conhecimento. Viver de arte é um dos seus objetivos?
Esse lance de ganhar a vida com arte é uma parada que trato com muito cuidado. O graffiti pra mim rolou todo um aprendizado para eu conseguir passar minha proposta e conseguir que me entendessem. Vejo dessa mesma maneira os meus trabalhos paralelos de arte. Preciso de uma base concreta pra não fazer algo vazio. Diariamente trabalho isso, conhecendo o que já  foi feito, experimentando, explorando técnicas. Assisti esses tempos um filme chamado “Anti-héroi americano”, o filme conta a história de um arquivista que em seu tempo vago criava histórias a partir de suas vivências e frustrações. Com a ajuda de um amigo ilustrador ele consegue colocar em prática uma série de histórias em quadrinhos de grande sucesso entre o publico. Basicamente hoje em dia é o que eu vivo, trabalho como motoboy e no tempo que tenho estou criando alguma coisa, seja uma peça de graffiti, uma montagem feita a partir de um aplicativo de celular, uma tela ou clicando uma fotografia.
11 – Espaço livre para falar o que quiser.
Queria agradecer a equipe Beside Colors pelo espaço de sempre, me sinto honrado em fazer parte disso. Família, amigos por estar presente nos momentos bons e ruins. Fé pra tudo!