Entrevista – Bruno Rodrigues (Locuras)

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Não importa o lugar, tudo pode acontecer! Todos os lugares que passei, fiz tudo que planejei, a missão foi cumprida com sucesso. Ser pixador em São Paulo te prepara para o mundo.

01- –A alguns dias atrás você viajou pra países da Europa como Alemanha, França, Holanda e também para países da América do Sul como Argentina. O que te motivou a viajar a essespaíses? Conte um pouco disso tudo e do projeto PixoAção.

Tive essa oportunidade de desbravar as “Quebradas da Europa”,  uma conquista fruto de uma vida dedicada a rua intensamente e um desenvolvimento de trabalho caminhando lado a lado com as origens da rua. A minha motivação foi estudar a pixação e entender que os tempos são outros. Minha história na pixação nasceu em anos de rupturas desse movimento. Sou da Zona Oeste de SP, minha raízes é de Edmilson Macena de Oliveira, o maior pixador de todos os tempos que tive a oportunidade de documentar. Esse cara é uma das minhas motivações, motivações  de conquistar o mundo e levar a pixação ao seu destaque mundial. O meu sonho era ter reconhecimento social através da pixação e circunstâncias da vida me fez refletir sobre ela. Tive um tempo de tempestade onde o pixo já não era mais motivação e nesse tempo conheci um grafiteiro da Alemanha e fizemos rolês em SP e ele disse da importância do trabalho que eu tinha criado para a história do movimento, enfim, a partir desses meses de convivência levei 1 ano para me reestruturar psicologicamente e continuar a guerrilha que sempre esteve dentro de mim. Essa amizade gerou o desenvolvimento de parcerias, trabalhos paralelos.

O Selo PixoAção é criação minha Bruno Rodrigues e Célio Pânico. Criamos no ano de 2007, um ano depois do meu nascimento nas ruas e produzimos conteúdos históricos da pixação Brasileira. Fizemos o primeiro filme e lançamos no ano de 2012. Fomos pioneiros na maneira de abordagem do tema ao produzir um filme dirigido por pixador, com o olhar do pixador. Nós nos preocupamos em dar voz a esses personagens reais e buscamos um diálogo com a sociedade para que conheçam esse movimento cultural através dos próprios pixadores. Fomos convidados para salas de cinemas públicas e privadas do Brasil e exterior. Um dos primeiros convites foi do MIS e pudemos convidar os pixadores a entrarem em um museu e assistir o documentário sendo eles os protagonistas da história, é uma vitória. Temos no total três filmes: 2 longas-metragens  e um curta e agora está em produção a série “Biografias” que começou com a história do Pixador “EMIENI-MN”.

02  – Depois de enxergar a cena em outros países como ficou sua percepção do movimento aqui no Brasil?

Foi muito importante essas viagens porque realmente minha visão ficou mais clara em saber que pixação não teria a possibilidade de nascer em outro país. É uma expressão única de São Paulo contextualizada por seus problemas sociais e políticos. Sou um cara que vive para a rua, eu fiz escolhas para a minha vida, tenho meus objetivos e fiquei feliz depois de ter conhecido um dos cabeças da crew 1UP e saber que eu não estou louco e que minha caminhada tem sentido, minha vida tem sentido, a pixação é muito rica e deve continuar sendo estudada. O companheiro me pediu uma entrevista acadêmica e trocamos ricas informações.

Viagem a Europa: intercâmbio de culturas e discussões sobre a pixação paulistana. (Foto por Fabio Vieira)

 

03 – Caras como o Djan, Zé, Guedes e tantos outros pichadores tiveram oportunidade de deixar sua marca em países de primeiro mundo. Como enxerga esse novo (não tão novo assim) intercambio? O gringo valoriza mais a pichação que o brasileiro?

São importante essas viagens, é importante o que cada um fez e faz. Essa história começa lá atrás com Artistas/Grafiteiros e depois passa por vários companheiros até chegar a minha vez. Tenho apenas 14 anos de estrada em um movimento que existe há mais de 3 décadas. A pixação é algo que provoca, tira da zona de conforto, faz parte da cultura Brasileira, de São Paulo. O gringo acadêmico, galerista e entusiasta têm interesse e abertura para entender essas expressões urbanas, talvez por enxergar que seja um fenômeno urbano único de São Paulo. Já o brasileiro está contaminado pela mídia e poder público e entende o grafite como ideal de arte e beleza e a pixação como o contrário dela. Por isso, busco dialogar com o público através de debates pós exibição dos documentários e promover workshops e exposições.  Muitos mudaram a forma de pensar quando me ouviram falar, tenho o trabalho de reeducar a sociedade, assim como reeduquei meus pais, hoje meus principais apoiadores, minha base de seguir resistindo as tempestades.

 

A pixação é algo que provoca, tira da zona de conforto, faz parte da cultura Brasileira, de São Paulo.

 

04 – Levantar questões sociais, políticas e expor seu trabalho fora do Brasil. Você algum dia sonhou que a pichação te levaria para esse caminho?

Como eu já disse, eu nasci em uma Era de rupturas, na rua sou a Nova Era. Eu fui instruído por grandes representantes da pixação paulistana, sou novo mas sei o que quero, sei o que faço. A rua me fez crescer, eu sempre sonhei com isso que está acontecendo na minha história. Quando eu estudei Edmilson Macena de Oliveira eu entendi a minha representação na rua e a conversa com o alemão me fez refletir sobre minha vida. Assistam o filme “Olhar Instigado”, ele retrata a minha transformação. A pixação traz todo esse reflexo político e social e em Buenos Aires, Argentina fiz uma aula prática  ILEGAL na Universidad Nacional de las Artes (UNA). Quem tiver interesse, pesquise e verás o que a pixação causou em reflexões sociais, políticos e artísticos.

 

Filme “Olhar Instigado”: caminhada de Bruno Rodrigues exibido em solo europeu (Foto por Fabio Vieira)

 

05 – A pichação sempre foi protesto para você ou ela foi se resignificando ao longo da sua vida? Na sua opinião qual é o futuro da pichação?

A pixação não é só protesto, o protesto é uma de suas vertentes. O futuro do pixo continuará sendo pixação por diversas motivações, o que caberia aqui seria o futuro do pixador.

06 – Há 4 anos atrás Aílton dos Santos e Alex Dalla Vecchia Costa foram mortos pela polícia e depois os mesmos autores do crime (como em inúmeros casos) foram liberados sem terem sidos ido a julgamento popular. Como você vê esse abismo entre o Brasil e os países que visitou? O que mais te revolta hoje em dia?

É revoltante isso. “Justiça” para quem? Meu primeiro trabalho dentro de um espaço cultural foi uma instalação polêmica e trazendo essas reflexões. Sempre nas conversas que tenho com o público, todos querem saber como é a repressão da polícia, governo e sociedade. É um caso que traz ódio, indignação. Matar alguém por causa da arte transgressora, que mundo é esse que não nos dá voz?! A sociedade brasileira, especificamente, a paulistana assinou a sentença de vários periféricos elegendo Bozonazi e João Dólar, governantes que aplaudem e dá medalhas de honra por tirar a vida das “minorias”. Isso é o fim dos tempos, é por isso que digo: o pixador tem que ser valorizado, a pixação é sua vida. Nos países das Europa a punição é no bolso. Na Argentina, em Buenos Aires, também é crime pintar na rua e um morador matou seu vizinho grafiteiro, algo raro que aconteceu em 2018.

07 – Mudando de assunto: Conte nos como foi pintar os trens alemães e sair pra pixar com os caras do Berlim Kids. A dinâmica é a mesma? O apetite também?

No primeiro dia em solo europeu, já tive a oportunidade de expor a pixação em alguns trens em Berlim com caras de influência na rua. A conexão com os manos do Berlin Kids foi nas últimas semanas, quase no fim da viagem. Tivemos pouco tempo juntos, mas essa aproximação fez entender a admiração que eles tem pela pixação paulistana. O pixo paulista e suas raízes só existe em São Paulo, é uma expressão urbana que não faz sentido sem seu contexto social, político. A tipografia está se espalhando pelo mundo e a pixação é muito além da caligrafia.

 

Bruno em uma de suas instalações: estética paulistana envolta de protestos e contextos sociais. (Foto por Oh My Deusu / Pixoação)

 

08 – Como foi apresentar seu filme e discutir a pichação junto no Festival Arte Callejero Latinoamérica?

O Festival Arte Callejero Latinoamérica, em Buenos Aires, Argentina, foi de extrema importância para minha caminhada. Poder estar próximo de uma cultura vizinha ao meu país e perceber semelhanças e diferenças extremas foi enriquecedor para entender onde estou e a força e dinâmica da pixação. A exibição do documentário PixoAção no Centro Cultural Haroldo Conti, espaço onde serviu de detenção, tortura e extermínio na última ditadura militar (1976-1983) e hoje recebe o nome do escritor que foi morto nesse período, contou com um público de variadas idades, até senhores de bengala estavam lá. O Argentino é politizado e tem memória, sofreram com a ditadura e hoje passam por uma forte crise política e econômica com presidente Macri. É a memória, o protesto  que os aproxima da nossa luta com a história da pixação.

 

Escolhi a pixação para viver, é minha religião, minha fé.

 

Homenagem de Bruno a Edmilson junto ao Nazza Stencil na Argentina: maior referência do escritor dentro do movimento.

 

09 – Pintar na América do Sul é muito diferente da Europa? Nos conte um pouco do que viveu lá.

Fazer arte na rua é adrenalina em qualquer lugar. Não importa o lugar, tudo pode acontecer! Todos os lugares que passei, fiz tudo que planejei, a missão foi cumprida com sucesso. Ser pixador em São Paulo te prepara para o mundo. Um dos rolês feitos na Argentina de dia, rolê de casal e mais outros foscadores argentinos, foi na tranquilidade, nos infiltramos no prédio habitado, aproveitamos as brechas da segurança e passamos com todo o kit da modalidade corda. Chegamos ao pico do prédio, funcionários trabalhando, passamos sem ser vistos e começamos a montar a cadeirinha para fazer a  lateral do prédio. Um dos operários nos avistou e perguntou o que estávamos fazendo e o argentino respondeu que estávamos trabalhando em publicidade, foi quando o operário se debruçou e viu toda a armação das cordas, cadeira, tintas e não falou mais nada, urinou no canto da laje e voltou ao seu trabalho. O “foscador” argentino riu para mim e as meninas na laje junto a outro amigo fizeram nossa segurança e o plano seguiu normalmente. A avenida onde fizemos era bem movimentada e passou polícia, população olhando e ninguém se dava conta que se tratava de um ato ilegal. Na Europa não tive conflitos com moradores, era uma época de Inverno, os riscos que corri eram mais nas ações políticas e nos trens. Esses sim, era tudo ou nada, mas deram todos certos.

 

Rapel em terras argentinas: sociedade politizada desde os tempos da ditadura.

 

10 – Quais são seus  próximos planos e ambições dentro da pixação?

Como descrevi no inicio da entrevista tenho muitos planos, muitas ideias e pretendo realizá-las. Os objetivos aumentaram, a vontade também e a minha cobrança pessoal triplicou. Sou inquieto e quando o assunto é pixação, é a minha vida em jogo. Escolhi a pixação para viver, é minha religião, minha fé.

11 – Espaço livre para falar o que quiser.

“Vamos vencer sem pilantragem com ninguém”.

 

Créditos Fotos Europa: Fabio Vieira /  Douglas Pingiture / Oh My Deusu / Pixoação