Kings of Graffiti: Chino Byi

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Graffiti is the only community of people on the planet — us as writers — who feel the need to document their illegal behavior. I guarantee you, the guy who broke into your apartment did not film himself, he did not live-stream himself on Facebook doing it, there isn’t a YouTube feed of him robbing apartments, there’s no social media. The guy that stole your car is not doing donuts on Instagram and showing off. Graffiti writers for some reason feel the need to share their exploits. Just be smarter.

David Villorente é conhecido por todo escritor americano que se preze. Nascido e criado nas ruas do Brooklyn, Chino é considerado por muitos uma enciclopédia ambulante quanto o assunto é graffiti.

Hoje historiador do movimento, Chino ganhou notoriedade nas ruas e também fora delas. Com mais de onze anos no posto de editor de revistas como “Bomb Shelter e “Graf Flix”, Villorente é co-autor de livros como “Mascots and Mugs” e os best-sellers “Piecebook”, famosos no mundo do graffiti mundo a fora.

Atuante como grafiteiro durante principalmente as décadas de 80 e 90, David conviveu com o movimento desde o seu nascimento e teve seu primeiro contato com o graffiti ainda criança. “Eu cresci em Nova Iorque na década de 70. Muito da paisagem ao meu redor era coberta de graffiti. Na época que estava na primeira, segunda série eu vi alguns garotos escrevendo na lateral de um ônibus. Eu era novo demais para sair ao meio dia e estávamos matando tempo antes de meu irmão mais velho sair da escola. Esses dois garotos correram até a parte de trás do ônibus e fizeram tags em plena luz do dia. Lição aprendida no início da vida: o mais óbvio é geralmente o menos óbvio. Eu fui provavelmente a única testemunha dessa infração penal inofensiva mas isso foi fascinante. Eu pensei comigo mesmo: é assim que eles fazem isso” conta.

Ainda sobre a infância, Chino explana: “Quando eu comecei a observar o graffiti nos metrôs isso tornou as coisas ainda mais confusas pra mim: Como eles podem escrever nos trens em movimento e fazer esses pieces tão grandes?… Eu lembro de ver o personagem do Conan quando viajava para o Queens. Eu estava por dentro dos quadrinhos e esse nome chamou minha atenção. Meu olho não treinado não era suficientemente sofisticado para decifrar os intrincados Wild Styles nos lados dos vagões em movimento, mas eu reconhecia figuras como Snoopy, Mickey Mouse do Fantasia e outros personagens. Eu estava familiarizado com aqueles “Saturday Morning Cartoons”, os cartoons de tirinhas e dos quadrinhos. Me identifiquei com aquilo”.

Já na escola secundária e em contato com alguns escritores, muitos deles alunos também, David começou a se envolver e observar o movimento de uma outra forma. “Eu fui inspirado em artistas da linha R originalmente, garotos do Sunset Park, Bay Ridge, Bensonhurst, Coney Island e Borough Park. Caras da crew BMT que tinham um estilo único… para ser sincero os dois escritores que mais observei quando estava no colegial eram duas garotas: SS (Super Skates) e Chic. Meu colegial foi no Brooklyn e eu acreditava que elas viviam nessa área. Chic tinha as mesmas 3 letras de minha tag. Em algum momento notei que a barra da sua letra ‘I’ tinha saído do ‘H’ quando escreveu. Na versão original da minha tag, o conceito de conectar minhas letras foi inspirando na Chic e o flow da sua tag, na minha opnião, era comparado aos caras do Sunset Park e da Bay Ridge, o que os caras da BMT estavam fazendo”.

Me at 15 years old. Bad hair, Lee jeans, shell toe Adidas, Le Tigre shirt, Members Only jacket and a dish washing glove I stole from my mom. Franklin Ave Shuttle lay-up, 1985

“Eu com quinze anos de idade. Cabelo ruim, calça Lee, Adidas no pé, camiseta Le Tigre, jaqueta Members Only e uma luva de lavar louça que roubei da minha mãe” (1985)

Mal sabia o garoto do Brooklyn que se tornaria anos depois um dos principais nomes da sua geração. Com o nome de Chino dado pelo seu tio, David não foi o único a usar esse nome nas ruas da grande cidade americana. “Eu sou de uma família grande de latinos e a maioria dos meus parentes tinha apelidos latinos interessantes. Provavelmente há um ‘Chino’ em toda comunidade espanhola, talvez muitos ‘Chinos’. Mas uma vez que comecei a escrever ‘Chino’ eu levei isso pra frente e nunca mais repensei no nome. Eu vi ‘Iz the Wiz’ um pouco antes de falecer e ele me disse: ‘Você sabe, eu tenho pensado nisso por um longo tempo. Eu vi muitos ‘Chinos’ irem e virem e você é o original na minha opnião. Você é o que mais tem feito com esse nome. Você, inegavelmente, tem destruído as ruas e os trem com esse nome. Talvez alguém deva ter feito antes de você mas você fez o melhor trabalho com esse nome” conta o escritor que ainda define Iz como um ídolo: “Meus dois heróis eram Muhammad Ali e Iz the Wiz. Mike foi um incentivador de vários projetos durante anos. De forma muito estranha, seu ‘aval’ me fez sentir um garoto de treze anos de idade de novo. Algo do tipo: ‘Puxa vida, este é meu herói!’. Significou muito para mim vindo de um homem que eu tinha um tremendo respeito”.

Ainda sobre artistas que admirava, Villorante foge um pouco dos padrões do grafiteiro comum e expõe uma grande personalidade da época que não era necessariamente atrelada ao espírito hip-hop que reinava na metrópole. “O trabalho de Keith Haring teve uma grande influência para mim. Seus desenhos de giz estavam por toda a cidade. Eu pensava que a cidade era a responsável por colocar aqueles desenhos até minha mãe dizer que aquilo era feito por alguém e de maneira ilegal. Eu fiquei fascinado com a noção de que um só cara poderia, antes de eu estar lá, ter estado em todos esses lugares”.

Na crew BYI desde a década de 80, Chino conta como funciona a hierarquia da crew e como começou a riscar seus primeiros trens: “Trech é o presidente da BYI, que é a principal crew que eu represento. Tecnicamente eu sou o vice-presidente da crew… mas é uma crew do Trech. Trech foi meu mentor. Eu conheci o Webster Cac na escola. Ele me levou para meu primeiro ‘lay-up’ e me colocou na minha primeira crew realmente de graffiti, a CAC (Cool Art Creators). CAC foi uma das crews que eu observava quando comecei a pintar. Rab, Dole, Slam, Desire estavam destruindo o interior dos IND (similar a sigla por exemplo da CPTM). Eles estavam também fazendo Pieces fodas e tinham trhrow-ups legais. Eu fiz meu primeiro trem na escola secundária mas comecei a pintar trens de maneira séria mesmo no meu primeiro ano do colegial”.

 

Dole (CAC) e Chino (BYI)

Dole (CAC) e Chino (BYI) dentro de um dos vagões do sistema metroviário de Nova Iorque: quintal de casa.

Ainda jovem, a cena o graffiti ficou marcada pelo jovem latino que teve suas primeiras impressões dos caras mais velhos. “Dez de dez primeiros encontros com grafiteiros foram agressivos e desapontantes pra caralho. Houve momentos, quando eu era criança, que todo mundo era cuzão. Mas se você é um novato da NBA você tem que carregar as bolsas e fazer as merdas que ninguém mais quer fazer. É um processo, um ritual antes de você se estabelecer. Se você realmente quer isso, você irá passar por cima desses obstáculos e dificuldades. Você não perde o foco porque é difícil. Você esta tão focado no seu objetivo final, que é se levantar, que a carne, a luta, as armas, as facas, os bairros perigosos e ser perseguido pela polícia são preocupações que vem depois” explica.

Mesmo nas adversidades, Chino conseguiu obter seu lugar no sol e construiu sua própria trajetória em meio a mundo hostil. Em entrevista a Mass Apeal ele conta um pouco de como era pintar em uma Nova Iorque bem diferente dos dias atuais. “A maioria dos encontros com artistas, mesmo com os seus artistas favoritos, foram muito desapontantes ou eles foram muito hostis. Eles estavam se achando, faziam você se sentir mal ou eles pegavam tudo que você tinha nos bolsos. Essa experiência realmente nos preparou para irmos para a rua, nos bairros perigosos. Nós tínhamos ido para Bed-Stuy, Brownsville, todas essas comunidades em 87,88 e nós não vimos policia em nenhum lugar. Sair de casa com dez latas, voltar com nada e perceber que durante a noite toda você só viu dois carros de policia. Algumas vezes nós eramos parados com tintas e eramos liberados sem revista, sem eles procurarem. Os policiais geralmente diziam: ‘Nós estamos procurando por crack e armas.’ Nós dizíamos: ‘Eu tenho tinta mano.’ ‘Saiam fora daqui!’. Era isso! A polícia estava atolada de coisas maiores para se preocupar. Era quase impossível ser preso por graffiti nos anos 80, isso até Giuliani ser prefeito”.

Entre andanças pelo verdadeiro parque de diversões que era o gigantesco Yard de Coney Island, Chino era um dos poucos escritores que também se aventurava em outros bairros da grande metrópole americana. “A maioria dos escritores que conheço não saiam de seus bairros. Eles pintavam as linhas e os ‘lay-ups’ locais. Eu nunca tive um ‘lay-up’ local então tinha que viajar para eles. Nós pintamos trens em Bay Ridge, Park Slope, Sunset Park… Nós íamos para o zona leste de Nova Iorque para pintar as linhas As, Cs e Gs ou como era conhecido A,CC e GG. As letras duplas do sistema de trem foram erradicadas em 1985. As letras duplas indicavam a versão daquela linha de trem. Nada estava fora dos limites para nós” conta sobre seu tempo áureo no graffiti. “As penalidades para o graffiti eram brandas. Você poderia ser pego grafitando trens muitas vezes e não teria nenhum registro criminal sério. Quando Koch (prefeito conhecido por combater de maneira ferrenha o graffiti na década de 70) morreu eu vi muitas pessoas postando nas mídias sociais: ‘Foda esse cara’. Mas eles conheciam apenas o Koch do ‘Style Wars’. Nós precisamos ser gratos que Koch era o encarregado de Nova Iorque naquela época. Se fosse alguém como Giuliani muito provavelmente carregaria uma carga muito mais séria e todos nossos grafiteiros favoritos teriam sido condenados como criminosos. Se você está me dizendo que gastar duas ou três horas num sábado a tarde limpando um vagão é uma punição justa para o volume de trens que já fiz, quem sou eu pra discordar de você?” explana David sobre as punições impostas e complementa: “Serviço comunitário era como uma faculdade do crime, onde você estava cercado de artistas que foram presos em outros lay-ups. ‘Não vá lá na sexta, está sempre foda!’ Obrigado por esse conselho’. ‘Ei, eu sei como entrar em Utica e você conhece o Yard de Coney Island. Por que você não me leva para Coney Island e te levo para o 175th?” relata de maneira cômica o cenário da época.

O sucesso de Chino, um dos primeiros a fazer tags o mais alto que conseguia, foi atrelado também a sua profissão na época, entregador de sorvetes. “As ruas eram um novo território. Eu estava dirigindo, explorando novos bairros. Eu tinha um trajeto na época, dirigia um carro de sorvetes para a Dolly Madison e era capaz de mapear diferentes bairros. Eu podia estar em Washington Height um dia, no Broxn no próximo, no Queens na outra semana e lugares estranhos do Brooklyn” narra David. Amigo de nomes como Tekay, Joz e Easy, Villorante explica a longevidade de muitos desses escritores dentro do movimento: “Você tem que se dedicar a sua causa e tem que ter coração. É preciso ter coragem para escalar algum lugar e colocar seu nome lá em cima ou sair sozinho para pintar…é útil ser sistemático e determinado, tendo um plano traçado e uma rotina. Tem uma parte do seu cérebro que diz: ‘Eu não me importo como quantas pessoas estão aqui, eu irei pegar o pico enquanto ele está limpo, esse será um spot meu e todo mundo irá imaginar como eu peguei aquele pico ali’… Um erro, um vacilo e tudo você pode foder sua noite inteira. Ser calculista é importante, sendo estratégico, mantendo o foco e sendo ligeiro. Não existe nenhum pico embaixo do sol que você não possa pegar. Geralmente os picos mais fodas do planeta são possíveis de fazer durante certa hora do dia do dia certo”.

Sobre a cena atual é mais contundente: “É preciso coragem, especialmente em 2016, com toda a vigilância em Nova Iorque, em um momento onde as penalidades são mais rigorosas e você corre o risco de aparecer no NY1 News ou na rádio 1010Wins: ‘Garoto no Maspeth, Queens, foi preso hoje com dez latas de spray. Você não pode ser inconsciente do que está se metendo. Se você está dentro e você é preso, faça o que você tem que fazer, mas não chore depois de ter sido preso. Entenda a repercussão dos seus atos. Graffiti é a única comunidade de pessoas do planeta onde nós escritores sentimos a necessidade de documentar o nosso comportamento ilegal. Eu garanto pra você, o cara que invade seu apartamento não quer filmar ele mesmo, não quer fazer live-stream dele no facebook fazendo isso e não há um canal do You Tube dele roubando apartamentos, não há mídia social. Escritores por algumas razões sentem a necessidade de partilhar com os outros suas façanhas” finaliza.

Fonte: Mass Appeal