CARLA ARAKAKI SHOOTS #4 – PARCEIROS E ARRASTÃO

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“Gosto de chegar com amigos e também sozinha, onde faço meu tempo e tenho meu espaço. É uma sensação muito boa. Apenas pego a minha tinta, tomo um ônibus e vou para a rua, eu e minha inspiração. Sempre sai coisa boa!  (Lis)“

Sexta-feira, Estação Sumaré. Três garotas planejam o destino da noite. Perto do boêmio e agitado bairro da Vila Madalena, Lis, Jack procuram um lugar tranquilo para se divertirem na madrugada. E o topo de um prédio parece ser o lugar ideal para elas. Acompanhadas da fotógrafa Carla Arakaki, Lis, a escritora mais experiente, conduz as ações da noite. “Estou completando “XXX” prédios feitos sem nenhum processo. Gosto dos prédios altos, edifícios, arranha céus. Me sinto melhor no topo da cidade” explica a integrante do rolê Arrastão, turma criada em 1994 pelo finado Cueca do bairro do Cangaíba.

Jack, a mais nova das três, começou escrevendo seu nome em 2011 na turma “Parceiros”, na qual se encontra até hoje: “Parceiros é um pixo que vem desde 1988 e tem na gangue somente integrantes da quebrada de Jandira. De 1990 aos anos 2000 tivemos o Dri e o Din para representar e expandir os nomes nas quebradas. A partir de 2007, JR e JNR entraram no grupo e reacenderam o nome do pixo por São Paulo” conta Jack. Com disposição de gente grande, ela explana também sobre a dificuldade de ser uma mulher num mundo majoritariamente masculino: “O perigo já começa a partir do momento que saímos de casa pois nós mulheres estamos expostas a diversos perigos.  Em um prédio os perigos são grandes, mas não tão extremos como quando você faz uma janela”.

jack_lis_arrastao_parceiros_22Lis e Jack por Carla Arakaki, 2016.

E nessa noite não foi nada fácil. Depois de duas tentativas, elas passam pelo porteiro e adentram no prédio onde iriam finalmente poder “esticar” seus pixos. “Uma vez lá em cima tem que estar atento a tudo. Com o barulho na hora de abrir, prédios vizinhos com janelas abertas, posto de gasolina, gente chegando. É complicado, se não tiver cuidado faz um ou outro, mas não desempenha. Não é só pixar. Para fazer prédio tem que usar o raciocínio, a inteligência. Não é só chegar, subir e fazer. Tem que dominar o espaço senão você se dá mal” – relata Lis, escritora com um currículo de quase duas décadas na prática da pixação.

Depois de subir até o último andar foi hora de acessar o topo do prédio. “Lá em cima tinha um portão com um vão que dava para passar por cima, depois um alçapão que dava na caixa. Para sair para o beiral tivemos que destelhar e acabamos achando uma tinta laranja que usamos no rolê” explica Lis. Ao chegarem no topo do prédio, a dupla que já tinha arrumado todo o material, começou e escrever seus nomes na parte frontal do edifício, de cabo. Finalizado, o próximo passo seria a lateral onde abreviariam o nome das turmas. No entanto, foram surpreendidas por uma viatura que descia a rua e tiveram que tomar uma decisão rápida. “Uma viatura desceu já acendendo e desligando a sirene rapidamente. No momento já percebemos que eles tinham nos visto. Quando pararam em frente ao prédio e ficaram olhando para cima tivemos então a certeza que o pico tinha ‘berrado’. Descemos e ficamos um tempo entre os andares do prédio observando eles até que decidimos descer e sair dali de boa, metendo as caras.” – relata Jack.

Tarde da noite, enquanto as pessoas ainda saiam de festas e bares, era hora das garotas continuarem o rolê, fazendo rabiscos de spray no caminho de volta para casa. Da ressaca do dia seguinte pelo menos elas se livraram.